PROJETO BTS

 II – 27 de outubro de 2017  VIII SEMANA DA BAÍA DE TODOS OS SANTOS

Dois anos depois que nasci, num sobradinho da Rua da Poeira, a Alemanha invadiu a Polônia, começando a II Guerra Mundial. Meu pai, português, que tinha comprado aquela casa e “tirado” alguns carros da agência que os vendera – com o dinheiro que foi buscar com o meu avô, em Portugal, para casar – perdeu tudo, porque botou esses carros “na praça” e um dos seus motoristas, ao levar um passageiro para Feira de Santana (seis horas de viagem em estrada de terra) bateu num caminhão, gerando um prejuizo que o obrigou a recomeçar a vida, a partir do zero. Fomos morar no subúrbio de Periperi, passando, antes, alguns meses, numa casa bem menor, em Praia Grande – ali perto – rigorosamente na praia, pois bastava abrir a porta do fundo e descer uma escada de pedra para se colocar os pés na areia ou na água da Baía de Todos os Santos. Assim comecei meu namoro com ela… 

A guerra trouxe os militares americanos para uma base naval em Paripe, onde meu pai voltou a crescer, à beira do mar, ali se empregando como motorista de caminhão e terminando – em 1946 – como chefe de escritório, com medalha no peito, pelos serviços prestados à Marinha dos Estados Unidos. Meu namoro, até então, com a Baía de Todos os Santos, em praias suburbanas, continuaria ao voltarmos para Salvador, tão logo a minha avó materna retomava um sobrado que estava alugado, na Ladeira da Jaqueira, a poucos metros da praia, onde cultivei os passatempos de desenhar navios que entravam no porto, empinava arraia na janela e soltava balões que eu mesmo fazia aos 11 anos de idade e subiam ao céu, sobre o mar, indo para a ilha. Aos 18 anos, já morava no Farol da Barra, indeciso entre a paisagem da baia e a das meninas na praia oceânica, mas mesmo assim, de vez em quando, preferindo-as na piscina do Yacht Club a beijar o mar, com Itaparica ao fundo.

Não preciso escrever mais, para justificar todo o tempo que tenho dedicado desde então a estudar e a admirar a Baía de Todos os Santos, onde, um dia – já tenho falado – quero que espalhem as minhas cinzas, sem qualquer ritual, somente abrindo a urna e deixando-me misturar, nos meus restos materiais, com suas águas. Enquanto isso não acontece, ainda há muito o que fazer. Aos poucos, desde que saí do Colégio da Bahia – o Central – para a Escola Politécnica e voltei-me para a engenharia dos transportes, são sucessivas as descobertas do muito que pode e deve ser feito para mostrar sua geologia, explorar sua geografia e honrar sua história, fazendo sua memória, não apenas a dos seus aspectos naturais, mas sobretudo a das coisas humanas realizadas em suas águas, tudo a exigir um projeto sobretudo científico, quer pela profundidade dos estudos extensos, quer pela responsabilidade de preservar o seu futuro, que nunca é garantido quando se negligencia o passado. Um povo que não cultiva sua história não tem um bom futuro, porque nenhum salto pode ser grande, sem que haja apoio sólido para impulsioná-lo. Assim, esta VIII Semana da Baía de Todos os Santos, agora neste site, apenas eletronicamente – uma crônica por dia – é dedicada a mostrar que não importam os acidentes de percurso, desde que se chegue ao destino com garra e competência.

Adinoel

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