
Era o ano de 1959. Ao concluir, eu, o curso colegial, dito científico (havia também o clássico), preparatório para o exame vestibular, de acesso à Universidade; estava sendo planejada a cidade de Brasília, com os arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer a valorizar uma profissão até então ocupada modestamente por jovens que projetavam casas e edifícios, podendo construí-los apenas até três “andares” e realizar planejamento urbanístico (loteamentos). Só aos engenheiros era permitido fazer projetos e construções mais ousadas, para os quais se exigia maior conhecimento de matemática, física, química, etc.
Desde menino, os adultos que me cercavam viam nos meus brinquedos preferidos uma certa vocação para a engenharia, de modo que, no curso dito “científico” do Colégio da Bahia (Central), já me preparando para o vestibular da Escola Politécnica, fui desviado pela onda avassaladora de Brasília, como a maior obra do século e naturalmente, pela fama que rapidamente transformou os arquitetos Costa e Niemeyer nas estrelas de maior grandeza do universo nacional. Assim, mudei o rumo e fiz vestibular para a Faculdade de Arquitetura, sem sucesso. Parecia haver algo a impedir-me de tomar tal direção, pois ao retomar o rumo original, logo fui aprovado no da Escola Politécnica, onde, apesar de alguma dificuldade com dois professores que se orgulhavam de ser “reprovadores”, acabei me formando sob a orientação do mestre Vasco de Azevedo Neto, que me levou para a área da Engenharia de Transportes.
Ao receber o diploma da Politécnica (Universidade Federal da Bahia) em dezembro de 1966, já era jornalista (Jornal da Bahia) e tinha coordenado e redigido todo um caderno especial então ali publicado, sobre a nova engenharia de transportes, introduzindo-se então a coordenação na base do seu planejamento. Coincidindo que o Estado da Bahia concluía sua restruturação administrativa, criando um órgão para a coordenação dos transportes e acabava de ser eleito o novo governador do Estado – Luís Viana Filho – tomei a liberdade de enviar para este o citado caderno especial, como uma contribuição à sua gestão. Logo fui convidado a dirigir o recém criado Serviço Aeroviário, para projetar e construir aeroportos na Bahia, assim iniciando minha carreira de engenheiro civil e dando sequência a anos de dedicação ao esporte do aeromodelismo, no qual já era campeão baiano de combate, tendo sido fundador do Clube de Aeromodelismo da Bahia e diretor da Associação Brasileira de Aeromodelismo.
Neste texto, portanto, pretendo gravar um momento da engenharia baiana, que foi marcado pela presença do recém-criado Serviço Aeroviário, na Secretaria dos Transportes, por nós implantado – sendo seu primeiro diretor – no panorama da aviação nacional. Formamos uma equipe técnica competente e ativa. Por exemplo, para o setor de obras, tiramos um engenheiro do Departamente Nacional de Estradas de Rodagem. Ao fim de um ano de governo, as páginas de jornal mostravam mais obras e atividade no setor de aeroportos do que no de estradas. Companhias aéreas – a Varig, por exemplo – que operavam nos aeroportos do interior do Estado eram mais rapidamente atendidas nos pedidos de manutenção, quando feitos ao Serviço Aeroviário, do que o eram quando os faziam ao Ministério da Aeronáutica. Em um ano e meio, fizemos um Plano Diretor do Transporte Aéreo para a Bahia, sob a coordenação técnica do Prof. Heitor Lisboa de Araújo, de Aeroportos (Universidade Federal do Rio de Janeiro), transformando o Serviço Aeroviário em Departamento de Aviação da Bahia. Feita a nossa parte, no entanto, não aceitávamos o vício administrativo que entregava o comando de órgãos executivos a políticos (deputados, por exemplo) e trabalhava em sentido oposto, com o objetivo primordial de buscar votos para os seus titulares em eleições futuras. Por causa desse desvio de objetivos e procedimentos, enfrentei conflitos e senti-me forçado a pedir demissão do meu cargo ao Governador do Estado, um dos maiores intelectuais da Bahia, competente biógrafo e administrador correto, até onde sei das coisas.
Até hoje – cinquenta anos depois – o que se vê é a função política predominar sobre as necessidades técnicas e funcionais dos órgãos de engenharia, nos municípios, nos estados e na união. Os recursos financeiros sempre foram mal empregados por aqueles titulares dos diversos órgãos públicos, mais orientados para eleger políticos do que fazer e manter projetos e obras de interesse da população. Não demorou muito e o Departamento de Aviação da Bahia foi fechado, sendo absorvido pelo Departamento de Estradas de Rodagem da Bahia. Só os políticos “acham” que estradas e aeroportos são a mesma coisa… Temos de acreditar na educação, que é sofrimento, para o aprendizado que leva os povos à civilização. Por enquanto, ainda somos animais humanos um pouco melhores do que os selvagens. Alguns nem isso, ainda são bichos…
