Os soluços de Dona Minhoca

 

Era uma vez… uma minhoca soluçante.

Todos os dias, à mesma hora, o soluço chegava, incontido: hic…hic…hic…

Ela já tinha se acostumado a ser assim: soluçante! Ele não ia embora, nunca!

O jeito era aturá-lo e ser assim: so-lu-çan-te… E continuar a ser a mesma minhoca, fazendo seu trabalho de sempre.

Numa manhã, em um lindo canteiro de margaridas irmãs, todas as mimosas flores estavam, preguiçosamente, a se exporem ao sol. Era a hora de receber os mornos raios solares e abrirem, cautelosamente, suas brancas pétalas e sorrirem para o Sol. Estavam entretidas nesta tarefa, quando, de repente, sentiram a terra tremer em suas raízes. Pensaram logo no pior:

“Será a terrível topeira???”

Quase fecharam suas pétalas, só por pensarem nela.

Outro tremor, lá no sub-solo. Pensaram, então:

“Será um terremoto?”

Não, pois o tremor não era tanto assim.

De uma abertura na superfície do solo, apareceu uma cabecinha buliçosa, que começava a sair da terra. Era Dona Minhoca, que estava a trabalhar por aqueles lados e foi parar justamente no canteiro das margaridas, causando tanta sensação entre as flores-meninas.

Descoberta a causa do tremor terrestre, ninguém mais se incomodou com tão insignificante personagem, até que uma coisa curiosa chamou a atenção de todos.

A cada “arrastada” pelo chão, Dona Minhoca quase pulava com o “hic”. Todas as flores cairam na gargalhada.

Coisa mais engraçada nunca tinha aparecido até então. Queriam parar o riso, mas não conseguiam, de jeito nenhum! A cada risada, as margaridas ficavam ainda mais belas.

Margaridas já são bonitas, imaginem-as sorrindo! O canteiro, pois, chamava a atenção.

Dona Minhoca nem ligou. Já estava super-acostumada com os risinhos daqueles que lhe dignavam um rápido olhar. É, rápido olhar, pois não é todo mundo que enxerga uma minhoca e lhe dá maiores atenções.

Continuando com seu hic… hic… hic…, ela logo penetrou na terra macia e foi cavando túneis e mais túneis, que mais pareciam linhas de metrô. Ela era rápida e eficiente e logo, logo, a terra estava bastante arejadinha.

Dona Minhoca não sabia, mas, a cada soluço que dava, abria um buraco na fofa e úmida terra que tanto gostava! Isso fazia a terra preta ficar mais fofa ainda e muito, muito arejada, o que era ótimo para as plantas.

As margaridas logo começaram a sentir-se bem. Suas raizes estavam até se mexendo! Que alívio, que segurança poder penetrar mais na terrinha gostosa do solo.

“Acho que vou crescer mais e bem depressa!” – dizia a primeira margarida.

A segunda, logo completou:

“E eu vou engordar uns quilinhos, tenho certeza. Minhas raízes estão tirando os sais da terra com mais força!”

A terceira disse, então:

“Que maravilha! Essa minhoca caiu do céu! Só deveriam existir minhocas com soluços!”

Dona Minhoca, alheia a tantos elogios, continuava seu trabalho rotineiro e soluçante. Jamais pensaria que a estavam elogiando.

As minhocas são assim. Fazem seu trabalho, que é tão importante para a vida das plantas, mas ignoram seu valor e apesar disso, continuam fazendo tudo certinho, sem necessidade de que alguém fique mandando-as fazê-lo.

A partir daquele dia, o canteiro das margaridas cresceu e floresceu.

Dona Minhoca Soluçante foi solicitada a permanecer naquele canteiro para sempre. Todas as plantas a queriam. O canteiro só era bonito porque tinha, por ali, uma minhoca com soluços.

E a vida seguiu seu rumo, deixando, mais uma vez, todos contentes e satisfeitos. Dona Minhoca e as margaridas irmãs viveram felizes para sempre, isto é, enquanto o soluço ali esteve presente.


Conto publicado em 26.07.81. Copyright © Vera Reis Maia

 

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