Domingo, arraias no ar…

 

Menino malandro, moleque de rua, passava correndo, sempre com pressa.

Menino descalço, camisa aberta, quando não estava despido, calção cerzido, blusa lascada, mas o rosto em festa.

Morava numa favela do alto do morro. Lá, bem lá em cima, estava sua casinha. De lá, ele tudo observava com os olhos curiosos de criança que tudo vê e tudo quer. Sonhava. Sonhava alto!

Preparava sua arraia para o dia de amanhã.

Arraia de três cores, rabada longa, para dançar bastante no céu, linha bem temperada para cortar qualquer uma no ar!

“Tonico vai ver o que é arraia” – pensava satisfeito, com a surpresa que os companheiros teriam, quando vissem, na manhã seguinte, a sua mais nova arma.

Na última empinada, lá no morro do Zé Lelé, a sua linda arraia, preta e vermelha, foi cerrada pela do Carlinhos Corta-Tudo e pela do Tonico, com aquele tempero envenenado que o tio dele ensinou e preparou e com o qual, ele, naquele domingo, de uma só vez, cortou três. No meio destas, estava a sua.

Fizera de tudo para salvá-la!

Afrouxou linha, dançou, mas nada. A “danada” do Tonico a seguiu e cortou. De olhos esbugalhados, olhando pro céu, coração batendo, só via a sua pretinha e vermelha, rodopiando, caindo, direta pro chão.

E os assovios, as vaias, gritos, risadas… não pensou em mais nada. Desceu desembalado, ladeira abaixo, feito um raio, passando por quintais , pulando os buracos, pedras e lixos, porcos e galinhas voando pros lados…

Tinha de pegá-la! Chegar primeiro, antes dos outros, que eram quase cem, naquele morro.

Desceu a ladeira aos tropeções, atravessou ruas… lá ia ela… caindo… caindo… e ele correndo… correndo… Ainda dava tempo! Apressou-se mais. Já não corria. Voava!

Só as vozes, ao longe, os gritos das mulheres que à porta assomavam, chegavam aos seus ouvidos, pois os olhos, mudos e hirtos, estavam voltados para o céu, para a arraia que caía, rodopiava, caía… preta e vermelha…

“Olha o carro, menino! Cuidado!”

“Tá louco, diabo? Olha por onde tu anda!”

“Ficou cego? O que deu nesse menino?!”

Eram as exclamações que mal ouvia, ao longe, misturadas com os assovios e as vaias dos vários moleques.

Tarde demais! Pegaram ela!

Momentos de frustração. Gosto ruim na boca. Perdera o dia. Perdera o domingo! Logo na primeira empinada da manhã, aquela derrota! Perdera tudo: linha, arraia, carretel… e a sua vontade de empinar.

Por isso, “amanhã”, era o dia da desforra. Levara toda a semana preparando esta tricolor. Estava no ponto. Linha dupla na rabada, bem temperada com vidro moído e cola de seo Manoel, pra cortar mais de três, lá no céu.

Domingo de manhã azul, sol quente, brilhante, aconchegante.

O dia convidava a empinar. Levantara cedo e, já de arraia embaixo do braço, dirigiu-se para o morro do Zé Lelé, o mesmo lugar do domingo passado. Todos estavam lá, prontos pra soltar as “danadinhas”. A sua chamava a atenção. Esperou o vento, aquele ventinho bom, que empinador de arraia conhece muito bem.

Logo, logo, sua arraia estava no ar. Começou a soltar linha e ela a subir, rápida, veloz, certeira. A chave estava perfeita! A tricolor dançava no céu, provocando as demais.

Veio uma, a do Tião e ela zás! Cortou.

“O tempero tá bom mesmo!” – pensava e exultava o moleque de morro, a empinar arraia.

Veio chegando a do Tinoco, branca e amarela, por trás. Afrouxando linha, a tricolor preparou-se e zás! Mais uma.

Ganhando confiança, ela foi subindo, subindo, imponente e altiva. Dançava sozinha, ao ritmo do assovio do moleque.

“Afrouxa se tem coragem…

Deixa de galinhagem…”

A terceira veio, a tricolor cortou.

Estava incrível! Ganhara o domingo, moleque de morro. Voltou a ficar temido. À tarde, ia ter gente em sua porta, com certeza, pra pedir a receita do tempero e o segredo daquela chave perfeita. Ia poder “cartar”de novo.

O dia estava começando.

Tinha muito que empinar… e arraias pra cortar…


Conto publicado em 31.05.81. Copyright © Vera Reis Maia

 

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