SEMANA DA BTS 2014 

A V Semana da Baía de Todos os Santos, realizada entre 25 de outubro e 1º de novembro, teve seu início antecipado porque o domingo 26 foi reservado para a realização de eleição de segundo turno para a Presidência da República. Desde 2012, o Gabinete Português de Leitura foi a única instituição a comemorar o aniversário da Baía de Todos os Santos, ressalvadas as pequenas manifestações individuais por ventura ocorridas em ambientes privados, sem divulgação. A abertura foi realizada no dia 25 de outubro de 2014, às 10:00 horas, no Salão de Exposições do GPL, pelo Presidente Manuel Bernardino da Silva, saudando os presentes e entregando pela primeira vez o Selo BTS (cor azul) aos representantes do Yacht Clube da Bahia (Presidente do Conselho, John Brussell e Diretor Cristovam Oliveira), pelo conjunto de suas realizações na Baía de Todos os Santos, desde sua fundação em 1936;  e do Aratu Iate Clube (Conselheiro Everton Pedro Fróes), pela realização anual da tradicional Regata Aratu-Maragogipe. Em seguida, o Prof. Adinoel Motta Maia, idealizador e coordenador da Semana, guiou os presentes e mostrou a Exposição Memorial dos Transportes da Baía de Todos os Santos, constituída por 15 painéis por ele confeccionados (textos e ilustrações) e mais 15, de uma coleção de painéis doados pelo Consulado de Portugal na Bahia, alusivos às navegações portuguesas nos séculos XV e XVI e aos índios brasileiros naquela época, sua organização social e seus costumes; tudo isso  tendo ao centro mesa com quatro modelos reduzidos de navios de passageiros e ferry-boats que fizeram a travessia da BTS, de propriedade do associado Eduardo Morais de Castro e à sua volta, sobre longa mesa, um outro conjunto de 29 modelos reduzidos, feitos pelo engenheiro de máquinas José Nunes da Silva (Diretor do Gabinete Português de Leitura), de diversas embarcações que já entraram na Baía de Todos os Santos, desde as naus e caravelas do tempo dos descobrimentos até os mais novos navios de cruzeiro, compondo, tudo, um conjunto harmônico comparativo da visão histórica e a cores, de 1501; com a outra, de hoje, em preto-e-branco, sobre travessias e terminais feitos por homens e máquinas que mudam a geografia no seu viés econômico e no social, dando-se assim os primeiros passos para a implantação de um memorial dos transportes na Baía de Todos os Santos. Nesse ambiente foi servido um Porto de Honra aos presentes.

No dia 28 – terça-feira – às 17 horas, no salão nobre do Gabinete Português de Leitura, foi aberto o seminário Travessias e Terminais da Baía de Todos os Santos, com a palestra De Salvador a Itaparica pelas praias do Recôncavo, proferida pelo Prof. Arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo e seguida de debate. No dia seguinte, 29, no mesmo local e hora, o Secretário de Planejamento do Estado, José Sérgio Gabrielli, pronunciou a palestra Sistema Viário Oeste / Ponte Salvador Itaparica, com o Plano de Desenvolvimento Regional, seguida de debate. Fechando o seminário, na quinta-feira – dia 30 – no mesmo horário, o Arquiteto Lourenço Prado Valladares pronunciou a palestra Projeto Porto-Travessia em Águas Profundas da Baía de Todos os Santos, também seguida por debate.  Esse seminário tentou iluminar a polêmica que se estabeleceu em torno dos custos e frutos das propostas atuais de travessia rodoviária da Baía de Todos os Santos, visando ligar seus terminais náuticos ao sistema viário de Salvador e do Recôncavo, com repercussão direta no Oeste da Bahia. sobretudo com a ponte proposta pelo Governo do Estado, assim se realizando, pela primeira vez, um debate comparativo entre os três autores dessas propostas, no Salão Nobre do Gabinete Português de Leitura.

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Esse seminário, foi planejado para contribuir na construção do futuro da travessia da Baía de Todos os Santos, mostrando as propostas existentes para sua realização sem traumas, tropeços nem prejuízos, servindo diuturnamente à sua vocação original de abrigo com terminais marítimos, mas mantendo-se bela e desejável, para atrair a gente de todo o mundo e dela própria, também em seus pequenos barcos a vela ou mesmo a remo, assim como em seus grandes porta-contêineres ou transatlânticos de luxo. Conforme se leu aí acima, na parte descritiva e comparativa das palestras, a apresentação foi feita pelos autores proponentes das ideias apresentadas, ventiladas com perguntas da plateia, cuja participação nos obrigou a ser indelicados, na última delas, para encerrar os debates que ameaçavam varar a noite, assim fechando o evento.

Sem fugir à nossa responsabilidade e respeitando a conclusão de cada um, sentimos claramente a necessidade de se criar um fórum em torno de um exame profundo de tais propostas, antes do Governo que assumiria o Estado em 2015 bater o martelo e dar a ordem de serviço para a construção da ponte Salvador-Itaparica do jeito que está em projeto agora concluído, que chamaríamos de Projeto I. Pareceu-nos claro – durante o debate – que essa proposta “faraônica” deveria esperar pela conclusão de um projeto que juntasse as outras duas e que, então, seria comparado ao atual e chamaríamos de Projeto II. Assim, ainda alinhavado, em benefício da objetividade, seria este uma superposição da linha envolvente proposta pelo Prof. Paulo Ormindo de Azevedo, melhorando-se algumas estradas, construindo-se novos trechos e uma ponte barata sobre o Paraguaçu, mantendo-se o serviço de ferry-boats e beneficiando imediatamente todo o Recôncavo, atendendo sobretudo o turismo náutico e rodoviário, inclusive para Itaparica e o Baixo Sul, a curto-médio prazo; enquanto se realizaria todos os estudos propostos pelo arquiteto Lourenço Prado Valladares, para otimizar e orçar a obra do porto-travessia, que viria em seguida, acoplada ao restante do Projeto I, com desdobramento rodoviário além Itaparica, na direção oeste, substituindo-se basicamente a monumental ponte rodoviária de 150 metros de altura, por uma sequência de duas pequenas pontes baixas e um túnel, que além de serem bimodais (rodo-ferroviários), preservariam toda a beleza da nossa baía sem perda alguma para as atividades náuticas, mantendo-a livre em seu trecho central (em túnel) e – o que é o diamante da coroa –dando a Salvador a prioridade no Brasil, permitindo fazer-se aqui um porto com calado de até 40 metros, que será exigido a partir de 2030 em todo o mundo.

Finalmente, no sábado, 1º de novembro – Dia de Todos os Santos – fez-se o encerramento da V Semana da Baía de Todos os Santos, com missa, das 8 horas, ministrada pelo Padre Fernando na Igreja de São Pedro, por ser o dia também da descoberta da BTS, seguida de um Porto de Honra às 10 horas na sede do                     Gabinete Português de Leitura. Todo o evento foi coberto pela emissora de TV da Câmara Municipal, que dispõe das gravações ali realizadas, inclusive das palestras em sua íntegra, para consulta dos interessados, participando, assim, a Câmara Municipal de Salvador, das comemorações do aniversário da BTS, também em 2014, quando, pela primeira vez, os diretores e alguns associados do GPL, além da Senhora Nathalie Viegas Granjo de Oliveira, Cônsul de Portugal na Bahia, juntaram-se aos fiéis – a igreja estava lotada – na comemoração não mais da descoberta da Baía de Todos os Santos, apenas, mas neste ano também do próprio Dia de Todos os Santos. O Padre Fernando foi competente na associação dos dois eventos, em sua homilia, conclamando os fiéis a naquele dia, comemorarem também a descoberta da BTS pelos portugueses em 1501.

Depois da missa – atravessada a Praça da Piedade – estiveram todos os convidados em confraternização na sede do Gabinete Português de Leitura, que serviu um Porto de Honra no ambiente da exposição, no primeiro andar, oportunidade em que cada um dos elementos componentes da mostra foi mostrado e explicado à Senhora Cônsul de Portugal, sempre interessada, a fazer perguntas, assim encerrando-se a V Semana da Baía de Todos os Santos, no dia de sua descoberta.

Salvador, 12 de Novembro de 2014
Adinoel Motta Maia

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I

 De Salvador a Itaparica pelas praias do Recôncavo 

A exposição centrou-se na proposta de ligar vias existentes a serem ajustadas a outras, novas, constituindo um conjunto que chamou de Envolvente Rodoferroviária da Baía de Todos os Santos, desde Salvador e chegando ao rio Paraguaçu numa posição de travessia deste para o novo porto de Salinas da Margarida, ligado a São Roque e prosseguindo para a Ilha de Itaparica e a rodovia BA-001. Dessa forma, estando Salvador já ligada por rodovias asfaltadas desde Aratu até São Francisco do Conde, servindo ao Porto de Aratu e ao terminal de Madre de Deus, entre outros, com acesso a Santa Amaro, Cachoeira e São Felix, todo o Recôncavo estaria ligado a Salvador por vias expressas, também atendendo ao tráfego turístico de baixa velocidade. Por outro lado, o palestrante se opôs aos argumentos que defendem a ponte rodoviária Salvador-Itaparica, porque esta daria uma alternativa ao embarque de minérios e grãos do Oeste pelo porto de Salvador, sendo o transporte rodoviário mais caro que o ferroviário (pela Fiol) para o Porto Sul, em Ilhéus, além do que o de Salvador não opera com granéis. Também argumentou que essa ponte tiraria os caminhões e automóveis de passeio das BRs 101 e 116 para o Litoral Norte, em direção ao Nordeste do Brasil, jogando esse tráfego pesado dentro do sistema viário urbano de Salvador. Ainda se referiu ao prejuízo que esse tráfego pesado traria para toda a região, tirando todo o seu potencial turístico, que precisa de um charme especial. Referiu-se finalmente aos custos da obra, que considerou grande demais para benefícios pequenos, com muito risco de ser interrompida e não terminar, como acontecia com o Metrô de Salvador, além de gerar uma dívida para muitos anos “e que talvez nunca se pague”.

                                                                                                                                                                                                         

II

 Sistema Viário Oeste/Ponte Salvador-Itaparica, com Plano de Desenvolvimento Regional 

Enfatizando que o projeto da ponte está inserido num planejamento de desenvolvimento regional voltado para o Oeste da Bahia, assim ligado diretamente ao mar, em Salvador, o Secretário explicou que o projeto prevê a ampliação do porto de Salvador, por um lado, assim como a duplicação da rodovia BA-001 – inclusive da ponte do Funil – com a construção de outra estrada, entre Santo Antônio de Jesus e a BR-116, ali entroncando com a BR-242, assim permitindo o tráfego direto desde o Além São Francisco até Salvador, constituindo-se num projeto econômico muito maior que a simples ligação entre Salvador e a ilha de Itaparica. Partindo dos estudos de 2010, fez-se então um orçamento da obra em sete bilhões de reais.  Ficou claro com a apresentação do Secretário de Planejamento e nos debates que se seguiram, que o projeto não visa apenas a substituição do ferry-boat e que um dos objetivos é dar outra opção de tráfego para quem hoje sai pela BR-324, beneficiando cerca de 45 municípios do Recôncavo e do Baixo Sul. Com cerca de doze quilômetros de extensão, a obra ainda não tem data prevista de conclusão, envolvendo um consorcio internacional. Essa opção surgiu de um estudo comparativo entre seis alternativas: via envoltória da Baía de Todos os Santos, uma ponte sobre a Ilha dos Frades, ou do subúrbio ferroviário para a ilha de Itaparica, além de túnel escavado e/ou submerso entre o Comércio (Salvador) e a Gameleira (Ilha de Itaparica). Foi mostrado que além do projeto viário na forma de Parceria Público Privada (a ponte, a rodovia dentro da ilha e a exploração da faixa de domínio desta), são propostas operações urbanas consorciadas na ilha. Respondendo a uma pergunta, o Secretário Gabrielli considerou a alternativa da via envoltória da BTS como “bucólica”, sem importância econômica. Por outro lado, outras perguntas mostraram preocupação com a altura de 150 metros da plataforma da ponte – cerca de três vezes a altura do Elevador Lacerda – acima do mar, como um muro vasado a dominar a paisagem, poluindo-a visualmente e deslocando a atual rota de navegação para oeste.

                                                                                                                                                                                                         

III

 Projeto Porto-Travessia em Águas Profundas da Baía de Todos os Santos 

O Arquiteto Lourenço Prado Valladares, da Prado Valladares Arquitetos Ltda, lançou a ideia de construção e operação de complexo portuário em águas profundas na Baía de Todos os Santos, incluindo um túnel central entre dois terminais portuários e duas pontes de acesso destes para as margens leste e oeste da BTS. Sendo essa a primeira vez em que tal ideia foi apresentada e debatida em público – antes, fora exposta no âmbito fechado de instituições e entidades diversas em Salvador – constituiu-se em novidade absoluta, mesmo porque é uma solução rara em todo o mundo. Seu título – Projeto Porto-Travessia em Águas Profundas da Baía de Todos os Santos – mostra como objeto primário a construção do porto no meio da baía, assim constituindo, seus acessos às margens leste e oeste, uma consequência que permite o tráfego ente estas. Sua originalidade, no entanto, vai mais além e difere totalmente das propostas de palestras anteriores, ao introduzir um túnel submarino entre duas “ilhas” acostáveis, como solução para a permanência da livre navegação no trecho de maiores profundidades da travessia – em túnel construído sobre o leito do mar – fazendo-se as pontes em áreas de menor profundidade, assim resolvendo-se problemas gigantescos de custos e de navegação. Isto ficaria evidenciado após a palestra, no debate, quando se fez as comparações e verificou-se que ao invés de doze quilômetros de ponte de 150 metros de altura, se poderia ter cerca de metade disso com pontes tão baixas que quase não seriam vistas por quem estivesse ao nível do mar. Na sua apresentação, o arquiteto Prado Valladares iniciou salientando que os estudos preliminares apontariam para a grande vantagem de se ter terminais acostáveis para navios de até 40 metros de calado, permitindo-se praticar a mais moderna logística de contêineres, contra a proposta de fazer ponte para servir o porto atual de apenas 12 metros de calado. Dessa forma, evidenciou-se que se passaria a ter a operação de navios que só operam em águas profundas e não operam em nossos portos de pequeno calado, isolando a Baía de Todos os Santos – o próprio Brasil – assim fora da rota do transporte mais econômico. Por outro lado, túnel e pontes baixas tornariam possível o modo ferroviário, ao lado do rodoviário, podendo-se pensar em metrô entre Salvador e a ilha de Itaparica.  O palestrante disse que sua empresa está fazendo uma proposta de realização de estudos preliminares de mercado, de localização do porto-travessia e de engenharia, além dos estudos sócio econômicos, territoriais, ambientais, com posterior avaliação econômico-financeira.