Às vezes, recebia carta endereçada “ao jornalista” e ficava a pensar nesse tratamento. Já fui jornalista. Já o era, quando veio a lei reservando o título e a função de jornalista para pessoas formadas em Comunicação. Foi-nos dado, então, aos que escreviam em jornal, o direito de registro ­­como jornalista profissional (aos que estavam na função), mas não o fiz. Preferi me manter como “jornalista colaborador” – escritor de jornal – e só muitos anos depois, ainda no Jornal da Bahia,  tive um registro como redator na minha carteira do Ministério do Trabalho. Jornalista colaborador é escritor em jornal. Também já fui escritor em livro. Hoje sou escritor em computador. O jornalista tem compromisso com a notícia, quer trabalhando diariamente (sua jornada) ou não, seja ela publicada em jornal diário ou revista semanal (ou mensal), devendo ser a mais imparcial possível, a mais nua e crua, objetiva, clara, direta. Pode também se especializar como “analista”, mas ainda assim será informativo, debulhará o fato em seus elementos e concluirá ainda de forma impessoal, imparcial.  Como escritor de jornal, pode-se ser um especialista (com base para formar opinião numa determinada área) ou não (apenas com estilo), mas jamais será um mero noticiador, pois seu compromisso não é com a informação, apenas, mas com a formação do leitor.

Com a agressividade da televisão, o jornalismo (apesar do nome) está cada vez mais deixando o jornal e ocupando a tela eletrônica, dominada pela imagem. Não se compra mais jornal para saber o que aconteceu ontem na cidade, no país ou no mundo, pois essas notícias já foram dadas nos informativos do dia anterior, com imagens vivas, nos televisores. Enquanto isso, os jornais estão se transformando em suportes para escritores que analisam a notícia e a aprofundam, com suas raíses históricas, seu cenário geográfico e sua aplicação prática no cotidiano das pessoas. Os leitores de jornal estão mais interessados nos artigos ilustrados sobre as últimas pesquisas médicas do que nos resultados dos jogos que já foram vistos – pelo menos, os gols – na televisão, não sendo outros os resultados, nas áreas econômicas, políticas ou sociais.

É de se prever uma revolução de conteúdo no chamado “jornalismo diário”, que não sobreviverá, se continuar reduzido ao conteúdo imediato que deu o nome de “jornal” aos órgãos noticiosos da imprensa. Assim, cabe-nos como observadores científicos não só fazer o registro, como apontar uma saída para a viela em que nos encontramos: sobrevoando-a. A agilidade característica do jornal diário o permite sair na frente, não mais impresso, mas eletrônico – sem a estrutura complexa e cara da televisão – como se faz na internet, nas chamadas “redes sociais”.

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