IMPRENSA

HOMENS NÃO SÃO FORMIGAS

 Você está comendo aquela última fatia de um bolo que foi feito em casa. Aí descobre que há algumas formiguinhas, no prato. Você bate o prato na mesa, sopra e até passa o garfo ou os dedos, na tentativa de livrar-se das formigas, sem matá-las, porque não adianta matar uma dúzia de formigas. Acaba-se com o ninho delas ou o problema não se resolve.  Outra situação: você vai lavar os pratos que estão na pia, mas há formiguinhas, neles, muito interessadas nos restos de alimento ali existentes. Você sacode, sopra, faz todo o possível para que os bichinhos se assustem e vão embora. A maioria percebe o perigo e toma o seu caminho para o ninho, o dito formigueiro. Outras, no entanto, insistem em cumprir a sua missão. Você não tem tempo nem paciência para esperar e então, abre a torneira. Lava os pratos e as formigas teimosas vão para o esgoto.

 

Ignorância e teimosia estão também nos homens. A imprensa e a televisão mostram a dramática situação das zonas rurais e urbanas brasileiras, quando as chuvas torrenciais matam dezenas de pessoas e desabrigam centenas, até milhares delas, em cidades grandes e pequenas, provocando enchentes e desmoronamentos de encostas. A cobertura jornalística enfatiza a culpa das chuvas e a necessidade dos governos federal, estaduais e municipais saírem em socorro das vítimas. Não é esta a função do jornalista: mentir. Evidentemente, estão mentindo por não procurar mais profundamente, as causas reais das ocorrências. Numa entrevista de televisão, vemos, todos, uma repórter, perplexa, diante da afirmação da meteorologista, de que as chuvas são normais nesta época do ano. Em outras palavras: nada está acontecendo com a Natureza, que não ocorra em todos os anos ou quase todos, neste período. As chuvas são esperadas, mas as pessoas, como as formigas, não saem das encostas.

Os editores responsáveis pela cobertura jornalística precisam ir fundo e prestar um serviço enorme à nação. Em primeiro lugar, precisamos olhar com atenção e tomar providências urgentes, com o que está ocorrendo com a Engenharia, no Brasil. Os governos estão desestimulando essa profissão, em nosso país. Fez-se muitos estádios para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, com prejuizo para as estradas, os terminais de transportes, as pontes e viadutos, enfim para toda a Engenharia que eleva o nível de vida sócio-econômica e produz riqueza. Há anos, a nossa engenharia está voltada para promover e estabilizar a pobreza, confundindo o interesse social com o das estruturas de insetos, isto é, os armários de gente, como aqueles que encheram a Europa comunista e ainda são vistos por quem passa nas estradas, desde Budapeste até Varsóvia. Não basta fazer caixas de morar e prédios que são armários, para enchê-los de gente a dormir e se abrigar da chuva, do mesmo modo que se deixa gente pobre morar nas encostas ameaçadas pelas aguas pluviais.  Habitações para seres humanos sem um metro quadrado de terreno para uma árvore ou uma pequena horta de tomates é tão humilhante como um prédio de apartamentos onde as pessoas vivem como as gravatas nas gavetas. 

A falta de obras públicas que realmente promovam a civilização e a cultura do povo desde a sua moradia, com o escasso e difícil retorno do capital empregado pela iniciativa privada nessa área e a conseqüente má remuneração dos engenheiros estão levando os jovens ambiciosos a preferirem outras profissões. Basta olhar a relação entre vagas e candidatos, nos vestibulares, nos últimos anos, para verificar-se que é decrescente o interesse pela Engenharia Civil, por exemplo. Como se sabe, quando isso ocorre, são aprovados alunos menos preparados, que farão cursos medíocres e se formarão com deficiências enormes, daí resultando uma Engenharia de baixo nível, no Brasil (ressalvadas as exceções devidas aos jovens bem orientados, que fazem o seu esforço pessoal, apesar das condições que os cercam). Isso também explica porque nossas estradas estão se abrindo com qualquer chuva mais forte, nossas pontes estão sendo cobertas pelas enchentes, os pavimentos urbanos estão sendo destruídos pelas águas e as cidades viram lagoas.

Outra abordagem importante é justamente comparável àquela que foi feita com o exemplo das formiguinhas. As pessoas estão ocupando os vales e as encostas, por ignorância e teimosia próprias, assim como por demagogia dos poderes públicos municipais, que permitem essa ocupação, por motivos “sociais”. Ao pobre, ao miserável, ao ignorante, tudo é permitido e nada se exige para a própria proteção e segurança. Os prefeitos pensam que pobres podem morrer. A classe média é obrigada a construir dentro de um código de obras e urbanismo aprovado segundo critérios técnicos de ocupação do solo e de funcionamento da habitação, com o objetivo único de oferecer um teto às pessoas, um espaço para manter-se vivo, como animal na cela do zoológico. Fugindo dessa obrigação, o cidadão que paga impostos recebe um embargo da obra e não consegue habitar no local. O pobre e o miserável, no entanto, podem fazer tudo. Invadem áreas, constroem sem qualquer orientação técnica e transformam terrenos estáveis em áreas de infiltração, que serão desestabilizadas com qualquer chuva mais intensa. Morrem pessoas, outras são desabrigadas, todas ignorantes e irresponsáveis, assassinadas ou prejudicadas por prefeitos e vereadores que lhes permitem fazer o que querem e até os ajudam, complementando suas ocupações com pequenas obras, mantendo-as em vales inundáveis e em encostas escorregáveis, para ganhar os seus votos, em futuras eleições. Os ignorantes nem desconfiam  de que esses políticos estão matando seus eleitores.

Senhores editores! Vamos acordar este Brasil. Todos os brasileiros estão pagando por esta irresponsabilidade, que não é apenas dos governantes que aí estão, mas de todos os outros políticos que os antecederam, com a cumplicidade dos empresários caçadores de verbas públicas. Assim esclarecidos, os editores que não fizerem a sua parte, serão inevitavelmente, também, responsabilizados por sua omissão e os cidadãos, leitores e telespectadores, saberão separar o joio do trigo, na hora de votar e na hora de comprar o jornal ou ver o noticiário na televisão.

VOLTAR PARA ÁREA DE SERVIÇO