FUTEBOL
CAMPEONATO BRASILEIRO
A verdade é uma só: os clubes de massa, que arrastam torcedores para encher estádios e garantir grandes audiências em rádio e televisão, não devem cair para a segunda e muito menos a terceira divisão do futebol profissional. Essa queda pode ser racional, no propósito de honrar o mérito, premiando aos mais capazes, administrativa e performaticamente em um ano ou outro. Tem, no entanto, um resultado cruel e talvez injusto, quando entidades tradicionais que são patrimônio sócio-cultural-desportivo e honram o futebol brasileiro são ameaçadas por uma postura demagógica meramente política, capaz de inviabilizar financeiramente a recuperação de tais clubes, quando, ao serem rebaixados, perdem fontes financeiras indispensáveis à sua recuperação. Isto é tão irracional quanto tirar a comida e o remédio de quem sofre uma doença temporária.
O que deve estimular a performance não é o rebaixamento, mas o nome e a camisa do clube, que amplia o elenco de sua torcida, em quantidade e qualidade educacionais, capazes de viabilizar a arrecadação nos estádios com o patrocínio de quem associa seu nome e sua marca a tais “camisas e cores”, de modo a haver representantes de todos os estados brasileiros no campeonato da primeira divisão, ainda que apenas numa ou duas etapas classificatórias, ficando a segunda divisão para os clubes que são meramente regionais ou estaduais, sem tradição nacional, isto é, os que exercem o importante papel de preparar atletas para o elenco dos clubes de primeira divisão e consequentemente, da seleção brasileira.
Na primeira divisão, para que os clubes não classificados numa primeira fase – para disputar os 12 primeiros lugares da fase final – não fiquem ociosos no resto da temporada, teriam eles um torneio complementar para definir suas posições a partir do 13º lugar, levando já a quantidade de pontos adquiridos na fase classificatória e fazendo-se, assim, ao fim do ano, a classificação geral, na qual, os dois últimos clubes classificados disputariam um torneio quadrangular com os dois primeiros colocados da segunda divisão.
O futebol brasileiro tem vivido momentos de angústia, como aquele, no ano 2000, quando foi ameaçado de não ter seu campeonato nacional, justamente porque no ano anterior, tornou-se necessário usar o tribunal para impedir que um clube de massa e de tradição, o Botafogo do Rio de Janeiro, caísse para a segunda divisão, juntando-se a outro clube de massa e tradição, o Fluminense também do Rio de Janeiro, que chegou a descer até a terceira. É verdade que o Vasco da Gama já desceu mais de uma vez e foi capaz de voltar, assim como o Palmeiras. Imagine-se o que seria, com o Flamengo ou o Coríntians lá em baixo. Não se pode aceitar, também, Bahia, Grêmio, Atlético Paranaense, Goiás ou Santa Cruz, por exemplo, jogando contra clubes que nada têm a perder e que eventualmente, com um bom técnico, fazem uma equipe em condições de vencer em campos esburacados, com torcidas jogando objetos nos jogadores e coisas tais. Bons atletas, craques de bola, não querem jogar nas divisões inferiores, contra tais adversários e em tais condições. Bons clubes que caem, têm dificuldades assim de montar boas equipes e nivelam-se com as piores, disputando com estas, de igual para igual, com o moral lá no fundo. Tudo isso para que todos os clubes do Brasil, apenas teoricamente, tenham condições de sair do amadorismo e chegar à primeira divisão, sem nenhuma torcida, sem qualquer tradição, só porque conseguiram vencer eventualmente no campo, em condições que não são as da divisão principal e portanto, não indicam que eles tenham qualquer chance de vencer o campeonato, lá em cima. Muitos deles ganham jogos em seus domínios justamente porque seus campos impedem o adversário de competir com todo o seu potencial. A subida de times ruins, que só vencem, porque disputam com outros ruins, piores que ele, só empobrece a competição. A descida de times bons, que se classificam mal, porque disputam com outros bons, melhores que ele, prejudica o futebol no Brasil. Em nome de uma pseudo-renovação e de uma igualmente falsa democracia, procede-se dessa forma. Apura-se a democracia no voto e quem vota, nos estádios, é quem paga ingresso. Manda quem tem mais torcida e não quem tem mais dinheiro para comprar atletas… e outras pessoas. Clubes de massa, que têm mais torcida, arrecadam mais nos estádios e com os patrocínios. Podem, consequentemente, armar melhores equipes, com melhores técnicos e melhores condições de treinamento, sem a ameaça de alterar toda a sua estrutura no ano seguinte, porque cairam para uma divisão inferior.
