ESCOLA
DUVIDAR PARA EDUCAR
Num artigo escrito para o Boletim A.E.C./BA (Ano 03 – Nº 1- Maio, 1983), da Associação de Educação Cristã da Bahia, a profa. Douraci Loula C. Nunes, então Superintendente de 1º Grau do Instituto Social da Bahia, citou uma frase minha – “as dúvidas são um sinal maior de sabedoria do que a posse de pequenas e limitadas certezas” – publicada no livro Humanidade – Uma Colônia no Corpo de Deus, Ed. Melhoramentos, São Paulo, 1981. Afirmou, ela, no seu texto:
“A nossa opção pelo método de projetos para o estudo de Ciências no 1º grau é uma tentativa consciente de estimular o educando a buscar respostas para seus questionamentos, suas dúvidas e não apenas dar conceitos prontos e acabados”.
Numa escola católica, orientada pelos dogmas da Igreja, segundo revelações divinas que chegariam prontas, através do Papa ou de algum outro medium, pode parecer uma declaração subversiva. O que é um “conceito pronto e acabado”? Por exemplo, o de pobreza, segundo a Igreja. Afirmar que “aos pobres, pertence o reino do céu” é uma certeza que não pode ser posta em dúvida numa escola católica. Como exercitar a dúvida, num ambiente onde predominam as certezas e as afirmações de que “isto é mistério”, quando não se consegue dar uma explicação para algum fenômeno como o da subida de Cristo “ao céu”, em carne-e-osso, mesmo hoje, quando sabemos cientificamente que não se pode ir muito além de 4 mil metros de altura, sem a proteção de um equipamento com pressurização artificial, justamente porque a baixa pressão atmosférica faria o sangue sair pelos poros, sem falar na falta de oxigênio para os pulmões e outras dificuldades físicas, próprias do corpo humano e suas necessidades? A essa dúvida sobre a ressurreição de Jesus, que jamais é alimentada numa escola católica, juntar-se-iam muitas outras, igualmente não admitidas. Como estimular aquelas dúvidas, permitidas, sem colocar o cérebro infantil ou infanto-juvenil em crise?
Já ouvi dizer que a função da escola católica não é preparar a criança e o jovem para a ciência e a competição, mas, ao contrário, para estimular a participação do indivíduo no meio social, em harmonia com este, isto é, navegar sempre em mar calmo, com ventos favoráveis, sem ondas nem turbulências. Acontece que a mente humana necessita de nova informação, a cada momento. É essa “fome” que aumenta o número de neurônios no cérebro e o faz crescer a cada geração, tornando o homem cada vez mais consciente, cada vez mais racional. Por outro lado, a Natureza é pura competição, porque as leis cósmicas assim determinam. Quem melhor se ajusta a essas leis, aproveita-as e domina os demais seres e o ambiente. Isto é natural e consequentemente, é divino. Natural e divino é, portanto, competir continuamente, pela sobrevivência e pelo desenvolvimento que promove a evolução das espécies. Não preparar para a competição é condenar o ser humano à esmola, à dependência, à obediência cega.
Parece-me contraditório, embora salutar, portanto, que a escola católica cultive a dúvida como uma forma de buscar respostas, enquanto o “conceito pronto e acabado” for ofertado como dogma de Fé ou como princípio ideológico, premissa indispensável para estruturas de raciocínio mantidas há quase dois milênios. É claro que a escola católica estaria traindo sua própria base filosófica, se estimulasse a negação dos fundamentos da Igreja, mas daí a transformar-se num instrumento de doutrinação das ainda imaturas mentes infantis, negando-lhes o direito à dúvida e à investigação inclusive desses fundamentos, seria, no mínimo, um fator de desconfiança nos seus propósitos educacionais.
Por esse motivo e só por ele, o artigo da professora acima referida não pode ser considerado subversivo, mas de um zelo extraordinário pela própria imagem da escola e da igreja católica perante os educandos e seus pais, sua família. Uma escola que enfrenta o perigo da falência da própria doutrina, para não obliterar a mente dos seus alunos é e será sempre uma escola na qual se pode confiar. Isso é o mínimo que os pais exigem, quando, pagando anuidades ou não, matriculam seus rebentos numa instituição educacional. Católica ou não, a escola jamais deve fazer a cabeça de seus alunos, mas tão somente prepará-los para que eles próprios façam suas cabeças, ainda que cultivando idéias diversas, até opostas, daquelas ministradas em salas de aula. Afinal, o passado está cheio de certezas oferecidas em salas de aula, que hoje são recusadas até em obras de ficção. Quantos educandos sofreram com a palmatória e a reprovação em exames, por terem recusado afirmações, que hoje estariam erradas! Não se deve confiar em escolas que não cultivam a duvida.
