MISTICISMO
A OPÇÃO PELA LIBERDADE
Cada ser humano normal tem um cérebro que funciona, com seus cem bilhões de neurônios e um potencial para 100 trilhões de ligações. Apesar disso, há muitos e muitos seres humanos, que, por falta de informação, isto é, por falta de alimentação de dados nesse cérebro, desperdiçam esses neurônios e não realizam aquelas ligações, o que vale dizer, estabelecem poucas relações entre os poucos dados disponíveis. São pessoas de pequena racionalidade efetiva, embora potencialmente muito racionais. O cérebro permite ao homem, portanto, desenvolver uma consciência do mundo onde vive e que observa e experimenta. Quanto mais dados ele absorve do seu ambiente, com sua observação e experiência de vida, mais racional ele se torna. Se necessitar, seus neurônios se reproduzirão e naturalmente, havendo muitos homens que atingem e até ultrapassam seus limites de racionalidade, acabam promovendo a evolução da espécie, para seres ainda mais complexos e racionais. Ele próprio é resultado da evolução de seres não racionais, desde a rocha, a pedra, a matéria sem o ácido desoxirribonucleico e a vida.
O desenvolvimento da consciência promovida pelo cérebro faz um homem melhor, em sua vida corpórea, material. Mas o homem é dual, isto é, constituído por matéria e digamos, não-matéria. Essa parte não material está ligada diretamente a um conjunto universal, que os místicos chamam de consciência cósmica e não depende do cérebro, na qual estamos mergulhados, porque somos parte dela. Se não a conhecemos é porque não sabemos abrir a sua porta, até porque não imaginamos que exista. Só estamos nela, quando dormimos. É preciso despertarmos desse sono, que nos fecha seu acesso, para vivermos integralmente, como seres duais. Há muitas formas de despertar. Alguns o fazem pela necessidade de vencer uma crise existencial, um trauma psicológico, uma situação de falência moral ou algum sofrimento intenso e duradouro, que os levam à psicoterapia ou ao isolamento, com a fuga do convívio social. Há quem exagere e saia de um extremo material para um extremo não-material, trocando a matéria pela não-matéria, radicalizando esse processo.
Outros despertam pela curiosidade. Nascendo em família religiosa e recebendo os ensinamentos no momento adequado, a verdade é que nem assim, na infância ou na adolescência, nunca têm uma visão ou sensação motivadora qualquer, dentro da igreja ou do templo, onde sempre estiveram presentes com uma obrigação a cumprir, não raramente recebendo uma influência castradora (é proibido pensar isso, é proibido fazer aquilo), voltada para forçar quem trabalha e produz, a sustentar continuamente quem se acomoda e se aliena. Percebem, ainda jovens, saindo da adolescência, com todas as dúvidas e inseguranças de tal idade, que a própria agremiação política ou religiosa os acomoda e aliena da sua natureza cósmica, para propor associar-se na luta por melhores condições de vida material na Terra para o homem que necessita de “justiça social”. Muitos deixam-se conduzir pelas leituras que fazem, assumindo uma posição político-ideológica, tentando atuar contra a então chamada “exploração do homem pelo homem”, dos que se aproveitam da inanição de uns para impor seus produtos materiais, suas propostas culturais e seu way of life. Quando se dá conta da própria revolta, já se está jogando livros nas paredes, quando algum familiar chega e interrompe sua leitura. Ha tanto o que fazer… mas o tempo não é suficiente sequer para informar-se de tudo o que acontece no mundo…
Com a mesma expontaneidade que o jovem se lança na aventura política, o faz, ao contrario, na religiosa ou mística. O que difere um destino do outro é o ambiente familiar ou escolar, com influências castradoras ou liberais, fazendo de cada caso, um caso deprimente ou estimulador, não raramente definindo o futuro do indivíduo assim vítima das circunstâncias do momento e do cenário.
Entre pressões religiosas e ideológicas, feliz é aquele que encontra uma terceira opção, raramente oferecida, porque não serve a interesses pessoais dos arregimentadores de mão de obra gratuita para partidos políticos e centros religiosos: o inusitado caminho místico-científico das escolas de filosofia e valorização ontológica, com a reclusão do jovem ao ambiente familiar e às bibliotecas, buscando o isolamento necessário à descoberta de si mesmo, através do estudo e da meditação.
Mais que a magia dos efeitos, aí importa a consciência das causas. Essa curiosidade motivadora leva paulatinamente às experiências realizadoras, se há vontade de praticá-las, vivendo integralmente na consciência material e na consciência cósmica, como um ser dual, com duas polaridades, como tudo o que existe no Universo. Desde então, a busca, a pesquisa, a meditação, formam a base da atitude investigatória, que é independente, sem obrigações ou limitações. Cada homem é livre para escolher a sua senda e seguí-la do modo como preferir, individualmente. Evidentemente, erra-se menos, quando há luz nesse caminho. O importante é deixar coisas feitas, sementes plantadas, por onde se passa. Assim, ao fim da estrada, após desligar-se dos ensinamentos colhidos, parte-se por conta própria para a busca da origem do cenário e dos fenômenos…
