CARNAVAL

O POVO FRENÉTICO NAS RUAS

Ao contrário do que muita gente pensa, o Carnaval é uma festa do calendário religioso, surgindo naturalmente da necessidade individual dos fiéis do catolicismo, que, tendo de passar quarenta dias (quaresma) sem pecado, aproveitavam os últimos dias antes de tal evento da Igreja para fazerem durante a folia o que não deviam praticar naquele período. Dias tais em que só a carne vale. Dias de pecado consentido ou tolerado, com vinho, sexo e música. Com o tempo, esse carnaval tornou-se a festa maior da alegria das pessoas – católicas ou não – e com isso, o direito de brincar sem limites, inclusive contra a vontade e os interesses de terceiros. Brincadeiras grosseiras contra amigos e inimigos, que não deveriam identificar seus agressores, assim, geralmente, mascarados. As famílias iam para as ruas, para ver essas brincadeiras, para participar da folia. Surgiram os foliões relativamente bem comportados, os desfiles organizados, os conjuntos musicais, as fantasias, as propostas amorosas de jovens apaixonados por donzelas só acessíveis naquela oportunidade. Das ruas, a festa foi para os clubes sociais e assim proliferaram os bailes de carnaval, antes só realizados em palácios (para a alta sociedade, a nobreza) ou em salões improvisados (para boêmios e artistas).

Com algumas variações, o Carnaval ainda é assim, na Europa, onde nasceu. Veio para o Brasil, trazido pelos portugueses, no calendário católico. Aqui, recebeu características próprias, com influência africana, na música e nas danças. Surgiram as escolas de samba e os corsos de automóveis, na rua, enquanto os bailes recebiam toda a força da música popular composta para os cantores de rádio, em ritmos de samba e de marcha. Peças musicais feitas para execução exclusivamente no Carnaval. Em Pernambuco, dominou o frevo. Assim foi, até, que, na Bahia, inventou-se o trio elétrico, adaptando inicialmente as chamadas “músicas de carnaval”, principalmente esse frevo pernambucano e em seguida compondo arranjos especialmente para tal e novo suporte. O singelo trio elétrico desenvolveu-se e surgiram bandas eletrônicas com músicas que, tratadas industrialmente, se mantiveram no mercado por todo o ano. O que se fazia para o Carnaval já não era apenas para o Carnaval e assim, passou-se a fazer carnaval durante todo o ano, na Bahia, depois também em outros estados, nas principais cidades do Brasil. Paradoxalmente, assim como o desfile das escolas de samba, no Rio de Janeiro, fizeram do Carnaval um grande espetáculo que acabou com a folia romântica nas ruas; os trios elétricos (bandas eletrônicas), na Bahia, transformaram essa folia momesca numa festa pasteurizada com a participação da massa popular a dançar num único ritmo, da chamada Axé Música, sob um som que domina pelo volume, esmagando toda e qualquer outra manifestação individual ou coletiva. Com isso, aquela proposta original, associada às regras religiosas, sumiu e o Carnaval passou a ser apenas um gigantesco meio de promoção da indústria fonográfica, no melhor estilo capitalista de fazer crescer o mercado para consumir mais produtos de pouca durabilidade, que devem ser substituídos rapidamente. O velho e tradicional Carnaval passou, assim, a ter um cenário alternativo, periférico, na Bahia, empurrado por essa manifestação altamente lucrativa que se prostituiu na Barra, para um gueto artístico no Pelourinho. Como ocorreu em outras cidades, em bairros dominados por blocos animados por bandas com instrumento de sopro e percussão.

Essa história é fundamental, para se trazer aos jovens, que não sabem o que é Carnaval, a consciência de que estão perdendo a oportunidade de conhecer a verdadeira folia. As bandas eletrônicas, inicialmente criadas por blocos de foliões, são, agora, as donas de verdadeiros currais, onde milhares de adolescentes e alguns adultos são cercados por cordas para serem ali mantidos como gado, a erguer braços e fazer passos, com movimentos comandados pela máquina industrial sobre caminhões de som, com o objetivo até de captar as vozes desse coro e as imagens desse corpo, cênicos, para a gravação de fitas de som e de vídeo, depois de tirar de cada um desses foliões consideráveis quantias em troca de um pedaço de pano que deve ser transformado em uniforme, sem o qual nenhum deles pode passar para dentro das cordas muito bem vigiadas por centenas de leões de chácara, isto é, musculosos homens encarregados da segurança dos blocos.

Com esta provocação, devemos prestar um serviço, contribuindo para que façamos, todos, um movimento de despertar da consciência dessa juventude – e não só dela – que está sendo condicionada a agir sob a batuta eletrônica que hoje a manda para um curral e amanhã poderá mandá-la para o matadouro. Exagero? Seria bom, se fosse…

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