CONDOMÍNIO
Quando todos ganham sempre
Entro no elevador e lá está, no chão, um pequeno pedaço de papel. Abaixo-me, tomo-o entre dedos e já no pavimento térreo, vou até a portaria do prédio, depositando-o na cesta colocada junto ao porteiro, pela administração do condomínio. Não desejo apurar quem o deixou cair. Temos serventes no edifício, para a sua limpeza. Poderia ter solicitado ao porteiro que chamasse um deles para retirar aquele papel do elevador, mas isso tiraria o empregado de um outro serviço que estava a fazer ou retardaria a coleta daquele lixo. O fato era que este me incomodava e envergonhava, porque moro no prédio e não quero que ninguém – um visitante, até – o veja como um antro de pessoas mal-educadas. Diz o velho ditado popular: “Quem, com porcos se mistura, farelos come”. Se não quero mudar de endereço, devo zelar pelo lugar onde moro.
A verdade é que (quase) todos nós vivemos em condomínio. O imposto predial e territorial urbano, que pagamos anualmente à Prefeitura Municipal, nada mais é do que a taxa do grande condomínio que é a nossa cidade. No edifício de apartamentos onde moramos, aprendemos a ser bons cidadãos. A qualidade da vida que temos depende do que realizamos para o benefício coletivo, cada um fazendo a sua parte. Não basta eleger um síndico, contratar uma empresa administradora e meia dúzia de empregados, deixando tudo por conta deles, da mesma forma que o Prefeito da nossa cidade não pode fazer tudo, ainda que o município tenha muitos e bons funcionários.
Fui o primeiro síndico do prédio onde ainda hoje moro, aceitei o cargo e seus encargos, novamente, anos mais tarde e a minha mulher já foi síndica também. Terminada a construção do edifício, a empresa construtora ainda manteve, nele, por um ano, uma pequena equipe, para uma coisa e outra, que fosse necessária. Na reunião que me elegeu, consegui convencer os demais condôminos de que teríamos de assumir a administração em conjunto e assim, dos quarenta e quatro proprietários de apartamentos, tiramos também dois sub-síndicos, um para a área de serviços administrativos e outro para a conservação do patrimônio, cada um deles contando com quatro outros condôminos encarregados de setores específicos.
Assim, tínhamos alguém para cuidar apenas dos elevadores. Outro proprietário zelava pelo jardim do prédio. Mais um responsabilizava-se pela manutenção das bombas de água e a limpeza dos tanques. Um outro se encarregava da contabilidade e assim por diante. O síndico não se envaidecia de ser manda-chuva ou dono-da-bola e cada auxiliar tinha carta branca para fazer e desfazer na sua área, ouvindo os demais proprietários. Vivíamos em família, cada um zelando pelo bem de todos. Esse espírito manteve-se por muitos e muitos anos e ainda está em muitos que permanecem no prédio, embora, hoje, haja uma síndica que cuida de tudo.
Essa mudança ocorreu porque, na medida em que os proprietários deixam seus apartamentos e os alugam a terceiros, os problemas começam a surgir. Quem não é dono, paga aluguel e acha que não tem compromisso, sendo raro o inquilino que comparece a reuniões ou aceita o que se decide nelas, pensando que não se demorará naquele endereço. Há pessoas que vivem sob a filosofia do “chupa-cana”, isto é, tirando o açúcar de tudo e jogando fora o bagaço. Pensa que isso é vantajoso, mesmo quando tem consciência de que tal procedimento custa mais e decide gastar mais dinheiro, por tê-lo suficiente para cobrir o desperdício. Tudo em troca de não precisar cuidar de nada.
Acontece, no entanto, que cada vez se avalia mais por meio de dados, como o que responde à pergunta: “Há quanto tempo reside no mesmo endereço?” Esta indagação costuma estar, por exemplo, nos formulários que acompanham pedidos de financiamento. Também no relacionamento social, há pessoas que não convidam para a sua casa quem vive como cigano. Isso porque já se sabe que o “chupa-cana” tem por hábito explorar os amigos até onde podem e depois jogá-los fora, trocando-os por outros, com mais “sumo”. Por outro lado, crianças que nascem e crescem no mesmo endereço e até permanecem na mesma escola, fazem amizades mais sólidas e são mais felizes.
Como ninguém é dono da verdade, é bom para todos nós que as informações e as idéias circulem e possam ser comparadas, para que a verdade de cada um esteja cada vez mais perto da verdade de todos e se tenha um ambiente de vida mais adequado à maioria das pessoas que nele se encontram. Isto é fundamental para o convívio social e a realização individual. Mais importante é que num condomínio se pratica e aperfeiçoa a cidadania, que temos de exercer em áreas públicas, como base para o desenvolvimento da nação e a riqueza do País. Quem é ignorante e descuidado, aceitando a sombra de um coqueiro, deve saber o que pode lhe cair na cabeça…
2 CONDOMÍNIO
NOSSA VIDA EM SILÊNCIO
Temos, todos, necessidade de paz, no cotidiano; condição indispensável para mantermos nossa saúde física e mental. Não é possível ter paz, sem silêncio. O ruído freqüente é fator de perturbação, a ser evitado. Nos edifícios coletivos, não raramente, pessoas mal educadas costumam ignorar os vizinhos e produzir ruídos diversos, assim como sons que poderiam ser agradáveis, mas são igualmente perturbadores, pelo volume em que são emitidos.
Pode-se evitar ruídos e sons indesejáveis através de legislação, com regulamentação adequada e punição aos causadores de incômodo. Há outras formas, engenhosas, de engenharia, que corrigem deficiências de natureza acústica. Em princípio, essas deficiências encontram-se em pisos, que podem até ser revestidos com material resiliente, tipo cortiça e outros materiais que absorvem as vibrações (ondas) sonoras, da mesma forma que as esponjas absorvem água. Esses absorventes acústicos podem ser ajudados com o uso também de isolantes acústicos, isto é, materiais que se colocam como obstáculo, anteparo, contra a transmissão do ruído. Devemos saber que os materiais duros nas paredes, nos pisos e nos tetos refletem as ondas de som. Duas ou mais fontes de som, atuando ao mesmo tempo, interferem-se mutuamente ou em conjunto, de modo que isoladamente suportáveis, tornam-se uma tortura, quando atuam simultaneamente. Contra isso, pode-se usar cortinas de tecidos (preferencialmente as pesadas), móveis estofados, grandes tapetes (forração com carpete), associando-se a isso o uso de materiais acústicos absorventes em tetos e paredes. Lã mineral, espumas de plástico, fibras de celulose e fibras de madeira são alguns elementos constituintes de tais materiais.
Os sons indesejáveis podem ser aéreos (transmitidos pelo ar), como vozes numa reunião social, ou de impacto, como passos no pavimento superior ou um martelo que faz penetrar um prego numa parede. Aos sons aéreos, pode-se oferecer obstáculos físicos sólidos e densos, que não transmitam as vibrações recebidas de um lado, para o lado oposto, justamente por não vibrarem com a ação do som recebido. O material adequado, neste caso, é, portanto, aquele que não vibre, como uma parede bastante espessa. Contem-se, assim, o ruído na sala ou quarto onde ele é produzido, impedindo-se a transmissão para áreas vizinhas.
O primeiro passo para diminuir a quantidade de vibrações que produzem ruído, é neutralizá-las na sua produção, como é o caso de aparelhos eletrodomésticos que vibram – liquidificadores, batedeiras de bolo – e podem receber, entre eles e a mesa, uma placa de borracha ou de cortiça. Tudo o que se puder fazer para evitar a vibração ou a sua transmissão contribui para o silêncio. Aparelhos como os ventiladores são fontes ricas de vibração, por transmiti-las diretamente para o ar. Som nada mais é do que o resultado de vibração, no ar.
Tudo o que, numa casa, produz choque, também produz som e ruído, desde uma torneira com defeito, que deixa a água pingar na pia, até uma porta ou janela que trepida com a ação do vento. Um taco solto, no piso, é fonte de ruído, sempre que alguém pisa nele. Assim, a busca das fontes de ruído deve ser feita em cada elemento móvel da casa, um a um, resolvendo-se caso a caso. Sempre que se apurar o ouvido e se ouvir um ruído é necessário pesquisar de onde vem e que elemento o está produzindo. Como se faz com os “grilos” nos automóveis. Também é preciso educar. Alguém que bate as panelas na pia, ao lavá-las não só produz ruído como estraga as panelas e a pia.
Para eliminar ou diminuir o ruído que vem da rua, pode-se interpor cortinas pesadas, instalar janelas de vidro duplo (camada de ar entre eles) ou construir paredes (se de madeira, com ar entre as faces externa e interna) que não vibrem ou absorvam as vibrações entre suas faces. Esse ar, no entanto, se estiver comprimido, transmitirá o ruído de uma face para outra, mais valendo usar uma substância líquida ou gasosa (vermiculite, por exemplo) que absorva essa vibração. Pode-se melhorar muito a acústica, colocando-se juntas ou batentes de material adequado em soleiras e peitoris, para evitar que o ar passe pelos cantos, pelos lados e por baixo e por cima de folhas móveis de portas e janelas. Vegetação em cercas e muros ajudam a absorver os ruídos exteriores, assim como heras a revestir paredes externas.
