O ERRO DE DAMÁSIO[1]

Adinoel Motta Maia

 

Resumo: este artigo começa abordando o compromisso do engenheiro com a criação, imitando o criador do universo e utilizando o método como o segredo alquímico da repetição da experiência o capacita a inovar e descobrir; propõe uma engenharia em que os materiais e os procedimentos não prescindem do método cartesiano e devem se estruturar na consciência como base da geometria, da matemática, da química e da física, independente da estrutura neural.

Palavras-chave: a necessidade de pensar teoricamente, os princípios matemáticos na base da engenharia, a Psíquica até a criação do fóton, a Física após a criação do fóton, René Descartes na base da existência e do método, a engenharia enquanto método, o erro do neurologista que não viu a consciência fora do cérebro, a engenharia que extrapola o cérebro e sonda a consciência fora dele.                                                                           

Genericamente, engenhar é processar dados com o objetivo de criar. Especificamente, contudo, engenharia é algo mais: é o conjunto dos procedimentos técnicos aplicados com a consciência de se chegar a métodos, estruturas e mecanismos, no propósito de promover resultados na produção básica de energia, transporte e abrigo.

Não se faz engenharia, portanto, sem uma base teórica e um procedimento lógico, conduzidos por algum método que possa ser registrado em linguagem precisa, seja literária ou matemática, desde que com esta se cumpra as diversas etapas da indução e da dedução. É exatamente isso que separa o engenheiro do feitor, ambos envolvidos num mesmo projeto ou numa mesma obra, até trabalhando no mesmo espaço físico e ao mesmo tempo, mas separados por uma enorme massa de consciência dos princípios da concepção até os fins da execução e o funcionamento do que se produz.

Enganam-se, assim, aqueles que buscam um diploma de engenharia com o único objetivo de qualificar-se para tão somente chegar a vias, terminais, edifícios ou máquinas, seja o que for, como mero feitor, cumprindo normas e aceitando processos, sem competência para alterá-los sem colocar em risco suas estruturas e seus objetivos. Normas são concebidas para feitores. Engenheiros também as utilizam como suportes e roteiros, mas capacitados a alterá-las, com responsabilidade, se isso for necessário, na cultura dos procedimentos, em busca do melhor benefício, do menor custo e do maior rendimento, visando a perfeição e até a invenção.

 


[1] Este artigo foi publicado originalmente na revista do Instituto Politécnico da Bahia.

Não fará isso, sem duvida, sem conhecer e aplicar o método, mas, sobretudo sem ousar alterá-lo onde e como isso se apresente como substrato do objetivo maior, da realização inovadora, daquilo que empurra a humanidade para frente e transforma a inteligência em sapiência. Não é por outro motivo que se costuma dizer que Deus é Engenheiro. Não um simples engenheiro de produção, certamente, mas aquele outro, maior, de criação.

Podemos assim afirmar que Engenharia é Geometria elevada à enésima potência. Cada um de nós, engenheiros, sabe qual o valor, desse “ene”, não necessariamente o mesmo para todos. Partimos do conceito do ponto, que existe na potência zero. O ponto, sabemos todos, não tem dimensão, mas apenas posição. Evidentemente, não tem massa e só existe como consciência. Consciência da sua posição. Se não houvesse essa consciência nele, não existiria. É evidente que estamos entrando na abstração matemática, que encaramos como disciplina psíquica. Se optássemos pelos caminhos do cálculo infinitesimal para explorar os espaços euclidianos ou não-euclidianos não atingiríamos nossos objetivos didáticos para introduzir esta proposta, assim restringindo-a a muito poucos leitores e talvez condenando-a ao abandono. É mais trabalhoso malhar com aparelhos menos sofisticados, mas assim podemos atingir melhores e mais amplos resultados na apresentação de algo tão novo que exige doses cavalares de paciência, digamos, alquímica.

Quando marcamos um “ponto” com a ponta fina do lápis, num papel, na realidade estamos desenhando um círculo cujo diâmetro mede, por exemplo, meio milímetro, no qual imaginamos estar esse ponto, um dos inúmeros que ali se encontram, lado a lado, cada um com diâmetro zero. Sem dimensão e com massa unitária[2], um ponto, qualquer ponto, mantém-se eternamente na sua posição. Fora desta, existe uma infinidade de outros pontos, tão próximos, que, se fossem mais próximos, seriam um só. Assim – atenção! – o que dá qualquer dimensão ao espaço não é a soma dos seus pontos, porque esta é sempre zero, mas a soma dos intervalos entre eles, por menor que sejam estes[3]. Assim, o espaço tem três dimensões medidas cartesianamente segundo três direções ortogonais e uma duração, que chamamos “tempo”. O tempo é a duração da consciência da existência – também infinitesimal – do intervalo entre duas posições de duração “zero”, de modo que assim pulsante – existo agora, não existo, existo em seguida… – há um intervalo que se soma e fornece a duração em que se mantém na sua posição.

Está difícil? Insistamos. Nós insistimos durante algumas décadas, até engenhar esta estrutura da consciência e chegar à existência a partir do Nada, concluindo ser este o tijolo com o qual foi feito o Universo[4]. O que é importante para o propósito deste artigo é que a existência – seja lá do que for – nada mais é do que uma composição cartesiana da consciência de diversas posições pontuais, que se estruturam geometricamente em

 

 


[2] A massa da unidade de consciência, ou seja, a quantidade de consciência correspondente apenas a posição de um ponto, sem dimensão. Assim um tetraedro, que é formado por quatro pontos adjacentes, teria massa quatro vezes maior que a de um ponto. Dois tetraedros unidos por suas bases, mais um ponto, cinco unidades de consciência, massa cinco. E assim por diante.

[3] É fundamental compreender que a consciência não é um atributo físico, mas o fator determinante da existência de uma posição, sem o qual esta não ocorreria assim fixa, permanente, individualizada e de modo que cria, à sua volta, os intervalos indispensáveis a essa existência nas três direções do espaço. A aceitação desse fundamento como evidência é indispensável à concepção do pensamento como uma atualidade – duração da consciência (tempo) igual a zero – que se repete igualmente – não mais em direção, mas em duração – determinando intervalos tão pequenos que se fossem menores não existiriam.

[4] Ver a “Teoria Unificada do Universo”, indicada na bibliografia, mas podendo ser acessada no Google, digitando-se o título assim, entre aspas.

tetraedros (quatro pontos), que se juntam linear ou esfericamente, formando ondas ou partículas, isto é, estruturas posicionais de consciência pura cuja duração – tempo – proporciona relações que Isaac Newton escreveu assim:

F = m(e/t)²

Sendo “m” a quantidade de consciência – de tetraedros (massa) – “e” a distância percorrida pela consciência ao mudar de posição entre dois tetraedros e “t” a duração da consciência nessa mudança de posição, tudo isso assim relacionado produzindo uma força de atração entre os tetraedros a formar essa estrutura, que cresce com o aumento da “massa” dessa consciência. Tudo isso em contínua evolução na medida em que essa estrutura também cresce em complexidade.  Sendo

e/t = v,

podemos afirmar que a força de atração aumenta na medida em que o nada evolui em massa (quantidade e complexidade de consciência) e em que a velocidade diminui[5], de modo que, ao descer até a velocidade de 300 mil quilômetros por segundo, a partícula formada pelos tetraedros de consciência produz luz e essa explosão de luz – só de luz – manifesta-se com a criação do fóton, que continua evoluindo em busca de mais massa e menor velocidade, surgindo partículas livres de “quase-matéria”[6] e em seguida as formadoras do átomo, assim surgindo a matéria. As experiências em execução nos aceleradores de partículas, com o objetivo de quebra-las, está comprovando ainda no campo da Física – ao qual se resume hoje a Ciência – que elas crescem em velocidade quando decrescem em massa. Os físicos ainda não perceberam que sua busca levará a partículas com velocidades superiores à da luz, mas aí suas massas são inferiores às do fóton e não mais obedecem às leis da Física, mas às duas leis da Psíquica – a da atração e a da evolução – que gerem o que já se começa a chamar de “matéria escura” e “energia escura” [7]. Quando a Física admitir a necessidade de trabalhar com sua companheira – a Psíquica – todos os mistérios e singularidades da chamada Mecânica Quântica, provavelmente estarão explicados.

Só agora posso chegar ao propósito deste artigo. Fazer justiça ao cientista René Descartes, até hoje não reconhecido como tal porque sua Matemática e particularmente sua Geometria foram jogadas no seio da Lógica, como Filosofia, podendo doravante ser acolhidas no campo da Psíquica, a ciência dos fenômenos cujas velocidades são superiores à da luz. Em verdade, assim como Newton, Descartes era um místico dedicado não só à meditação, mas igualmente à experimentação, reconhecendo o valor do processo alquímico de insistir em incansáveis repetições, numa e noutra, até surgir a revelação.

Nenhuma tecnologia, nenhuma engenharia, pode ocorrer sem a aplicação do método científico. Na base de toda descoberta científica encontra-se a Teoria que parte do

 


[5] Quando “t” tende para zero, “v” tende para infinito. Nesse processo, na medida em que o tempo (duração da consciência) aumenta, a velocidade cai.

[6] Ver Humanidade uma Colônia no Corpo de Deus, na bibliografia.

[7] Nos apêndices do romance A Cruz dos Mares do Mundo (ver bibliografia) evidencia-se a relação entre a Física e a Psíquica, de modo que o campo daquela está para o desta como o estudo da Fisiologia está para o da Psicologia. A Psicologia, no entanto, sendo uma disciplina ainda restrita à estrutura neural no ser humano, também ainda é parte da Biologia, que está no campo da Física.

raciocínio lógico, cujo resultado deve ser escrito para ser submetido à verificação experimental – isto é Ciência – podendo esse registro ser feito por escrito, quer literariamente (no idioma do pesquisador), quer matematicamente. A dedução, seja literária, seja matemática, é essencial ao processo de formulação das propostas a serem submetidas ao crivo da experiência, que, repetida e oferecendo sempre o mesmo resultado, comprova a hipótese, confirma a teoria e estabelece a verdade.

Este é o método, que continua sendo o de Descartes, apesar do laboratório científico do neurologista português António R. Damásio levar a considera-lo em erro[8], erradamente. O erro de Damásio é um típico exemplo de que o laboratório científico – como qualquer ferramenta – sendo mal utilizado pode provocar mais estrago do que conserto. O trabalho científico de Damásio é meritório e conduzido com extremo cuidado em laboratório, mas não escapa ao compromisso da ciência moderna com a ideologia materialista que só vê metade do Universo, aquela onde os fenômenos ocorrem em velocidades abaixo (e igual) à da luz. O que ele considera errado em Descartes é justamente aquilo que nos leva à outra metade, além (ou aquém) da Física, lugar do que estamos propondo ser o da Psíquica, campo de estudo dos fenômenos que ocorrem em velocidades superiores à da luz, tendendo para valor infinito.

Damásio começa sua crítica a Descartes justamente naquilo que o faz citado universalmente: sua frase “Je pense, donc je suis” – em francêse “Cogito, ergo sum” – em latim, traduzida corretamente para o português, como “Penso, logo existo”. Há uma sutil diferença entre os verbos SER e EXISTIR, que os ingleses e franceses não percebem, por terem um único verbo para SER e ESTAR, assim unidos num único significado: EXISTIR. Nós, que nos comunicamos com a língua portuguesa – o caso de Damásio – separamos e ganhamos com isso, na busca da verdade, mas perdemos a necessária noção de que, para EXISTIR, não basta SER. É necessário também ESTAR. Como vimos aí atrás, um ponto, não tendo dimensão, só existe porque tem posição. Sem ela, ele não existe porque é aquilo que o torna um ENTE, um ser geométrico. Mais importante é que Descartes viu a necessidade de uma consciência para existir, ou seja, para marcar sua posição.

O erro de Damásio, oriundo talvez da sua reflexão na língua portuguesa, consiste na ideia de que se possa estar em algum lugar, sem ser coisa alguma, isto é, sem ter a consciência disso, o que o teria levado a admitir que se possa existir sem pensar. Daí, a ideia de que o pensamento, a consciência, não é inerente à existência, sendo encontrada apenas no cérebro, como um procedimento – um fenômeno – que ele estuda, pesquisa e conhece profundamente, encontrando respostas que o fazem, neurologicamente, produtor da consciência. O erro de Damásio é justamente este, porque ainda mais precisamente do que o fez Descartes, podemos afirmar, tomando como evidência, que EXISTO, LOGO PENSO. Não se pode existir sem pensar porque é a consciência da posição dos pontos em todo o Universo que os estrutura, em conjuntos geométricos de consciência, formadores da massa, que cresce com o tempo – duração da consciência – ao diminuir a velocidade, conforme já vimos.

 


[8] Ver o livro O Erro de Descartes, que obteve sucesso mundial, sem contestação até este momento.

Escreveu Damásio: “Existimos e depois pensamos e só pensamos na medida em que existimos, visto o pensamento ser, na verdade, causado por estruturas e operações do ser”. Este é o ponto. Como neurologista, encarando a Psicologia com o seu campo meramente biológico, material, físico, António Damásio limita-se ao seu laboratório, trabalhando com o cérebro, que é o resultado da lei da evolução, desde que quatro pontos infinitesimalmente próximos formam um tetraedro e têm consciência disso, porque um ponto nada mais é do que pura consciência de posição, cuja duração cria o tempo, assim completando o espaço tetradimensional, que Albert Einstein, apressadamente chamou de espaço-tempo, como se o tempo não fosse parte do espaço, apenas uma duração que se associa a três direções da consciência. Evidentemente, Einstein estava limitado à realidade, que é relativa e não existe para velocidades acima daquela do fóton, que surgiu numa explosão de luz, na sua evolução para partículas de maiores massas e menores velocidades, isto é, o mundo da energia e da matéria, jogando o valor da velocidade da luz na equação de Newton e restringindo-a apenas a essa realidade, campo da Física, ignorando totalmente a base de tudo, a Psíquica, que agora estamos propondo, para completar o quadro do Universo.

Trago este tema a debate para mostrar que o “Erro de Damásio” é o de limitar sua neurologia à Física, ignorando serem os neurônios da Psicologia um produto da Psíquica, como tudo o mais. Estamos trazendo este exemplo magnífico, pela alta capacidade do pesquisador António R. Damásio e da sua elevada qualidade como cientista da matéria, para que, no nosso campo, da Engenharia, também façamos a necessária revisão e comecemos o aprofundamento do estudo dos materiais de construção e dos procedimentos em projetos e obras, enfatizando mais a Química e a Matemática, respectivamente, aprofundando-as em direção à Psíquica, com o objetivo de melhor dialogarmos com os materiais e fazermos não apenas neles, mas com eles, a alquimia da transformação que nos permita afirmar não apenas que Deus é Engenheiro, mas também que os engenheiros podem ser deuses, quer na criação, quer na construção.

 

 

Referencias Bibliográficas

DAMÁSIO, António R. O Erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo: Parma, 1983.
MAIA, Adinoel Motta. A Cruz dos Mares do Mundo: Morte no Museu de Arte Sacra. Salvador: Amme, 2011.
MAIA, Adinoel Motta. Humanidade: Uma Colônia no Corpo de Deus. São Paulo: Melhoramentos, 1981.
MAIA, Adinoel Motta. “Teoria Unificada do Universo”. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 102 (2007)
PENROSE, Roger. A Mente Nova do Rei: Computadores, Mentes e as Leis da Física. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

[1] Este artigo foi publicado originalmente na revista do Instituto Politécnico da Bahia.

[2] A massa da unidade de consciência, ou seja, a quantidade de consciência correspondente apenas a posição de um ponto, sem dimensão. Assim um tetraedro, que é formado por quatro pontos adjacentes, teria massa quatro vezes maior que a de um ponto. Dois tetraedros unidos por suas bases, mais um ponto, cinco unidades de consciência, massa cinco. E assim por diante.

[3] É fundamental compreender que a consciência não é um atributo físico, mas o fator determinante da existência de uma posição, sem o qual esta não ocorreria assim fixa, permanente, individualizada e de modo que cria, à sua volta, os intervalos indispensáveis a essa existência nas três direções do espaço. A aceitação desse fundamento como evidência é indispensável à concepção do pensamento como uma atualidade – duração da consciência (tempo) igual a zero – que se repete igualmente – não mais em direção, mas em duração – determinando intervalos tão pequenos que se fossem menores não existiriam.

[4] Ver a “Teoria Unificada do Universo”, indicada na bibliografia, mas podendo ser acessada no Google, digitando-se o título assim, entre aspas.

[5] Quando “t” tende para zero, “v” tende para infinito. Nesse processo, na medida em que o tempo (duração da consciência) aumenta, a velocidade cai.

[6] Ver Humanidade uma Colônia no Corpo de Deus, na bibliografia.

[7] Nos apêndices do romance A Cruz dos Mares do Mundo (ver bibliografia) evidencia-se a relação entre a Física e a Psíquica, de modo que o campo daquela está para o desta como o estudo da Fisiologia está para o da Psicologia. A Psicologia, no entanto, sendo uma disciplina ainda restrita à estrutura neural no ser humano, também ainda é parte da Biologia, que está no campo da Física.

[8] Ver o livro O Erro de Descartes, que obteve sucesso mundial, sem contestação até este momento.

 

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