JESUS E O PAPEL: crônica de Natal

Nuvens pesadas, cor-de-chumbo, formam uma “ilha” no céu branco, nesta meia-manhã de 24 de dezembro de 2018, com promessa de chuva nas gotas pesadas e isoladas a cair sobre o asfalto, à frente da minha janela – ainda aberta – de onde vejo dois policiais numa única motocicleta a patrulhar o bairro do Canela, em Salvador, Bahia, Brasil.

Roncam os primeiros trovões, troco a janela da frente pela do fundo, de onde eles parecem vir e vejo as águas mansas da Baía de Todos os Santos, ao tempo em que se precipitam as águas da chuva tangidas pelo vento forte sobre os telhados das casas abaixo do meu nível de observação, parecendo fumaça em flocos a correr pela paisagem, escondendo-a.

Logo à noite estaremos – toda a família e amigos – reunidos a comemorar o nascimento de Jesus ocorrido em data ignorada, mas adotando-se esta, que em verdade, é tradicionalmente a do início de mais uma elipse a ser realizada pela trajetória da Terra em volta do Sol no período de um ano.

Nascimento esse ainda polêmico, em data e local não científicamente comprovados, tal a contradição entre os textos que se apresentam aos pesquisadores, sim, gerados numa época em que mais valia a força dos romanos do que a fé dos judeus, impondo seu calendário e seus costumes, inclusive seus deuses.

Movendo-me entre as janelas e o computador, vou lavrando esta crônica, enquanto o temporal produzido por raro vento Noroeste a passar sobre a cidade como um bólido, logo se dissipa e deixa aparecer o azul da atmosfera superior, à luz do Sol Invicto, o deus romano, como a mostrar quem manda no Céu. O homem coleciona religiões conforme suas experiências. Sempre criou deuses, inclusive o que não tem nome – simplesmente Deus – para explicar as ações de causas desconhecidas, na Terra.

Ampla e profunda, é nossa ignorância. Neste momento de comemoração do nascimento de Jesus, temos mais uma oportunidade de refletir sobre o que se escreveu ao longo de dois milênios sobre ele, que não sabia escrever ou não queria fazê-lo, apesar dos muitos anos de preparação para o seu ministério, feita – ao que tudo indica – na Índia. Era o tempo em que mais valia a ação e a tradição oral, passada de geração a geração, como hoje colocamos tudo nos computadores, onde, também, cada arquivo poderá se perder… se e quando faltar energia para abrir todos eles.

É, portanto, este, um momento e um lugar para se pensar se estamos ou não no rumo certo. O velho papel (antigo papiro) escrito com tinta, ainda é o suporte mais confiável – manuscrito ou impresso – para aqueles registros que queremos sejam duradouros. Já temos experiência de que não adiantam fitas e discos que não se estraguem, se e quando já não funcionem as máquinas leitoras que a prática do lucro substitui por outras, incompatíveis…

Graças ao papel, temos ainda hoje as notícias do que foi a passagem de Jesus e os seus ensinamentos, na Terra.

Adinoel Motta Maia

 

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