VIAGENS

 

Durante suas viagens, Adinoel sempre fez anotações e fotografias, escreveu diários, gravou fitas de som e imagem e juntou pequenas lembranças, como ingressos de museus, passagens de bondes e metrôs ou guardanapos e forro de bandeja (de papel) de restaurantes. Ao chegar em casa, ao fim de cada uma delas, escreveu artigos e crônicas, montou álbuns com a colagem daqueles souvenirs, fez legendas para as fotografias e passou das fitas para o papel, as informações e as emoções colhidas. Aqui estão umas poucas amostras desses textos.


Desde marido enganado até nações inteiras sob dogmas religiosos, são muitos os que preferem nada saber.

  • Muita gente passa a vida inteira com medo de aprender coisas que a fariam sair do sonho para a realidade.
  • O ignorante é o indivíduo que permanece criança, necessitando de proteção e orientação de outras pessoas.
  • Quem ousa fazer e aprender além dos seus limites pode errar muito, mas um dia atingirá seu objetivo.

O verbo “errar” significa andar sem rumo e sem destino certo. Quem tem medo de errar não sai de casa para lugar nenhum. Assim, quem viaja deve procurar o máximo de informação, para errar menos.

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Ao contrário, há pessoas que nada ou pouco realizam, porque se enchem de medos e se impõem limitações. Viajar é um processo cultural arriscado e como tal, tem etapas muito bem definidas, desde a ideia original e a vontade de realizá-la. Há muitos modos de sair de casa em busca de novos cenários, novas amizades e novas emoções. Roberto de Mesquita Barros e Roberto Alan Fuchs narram, num livro muito gostoso – As Fantásticas Aventuras do Maitairoa (José Olympio Editora) – as etapas de uma “odisseia brasileira no Atlântico Sul”, com a travessia do oceano desde o Rio de Janeiro até a África e a volta ao nosso continente, reencontrando-o exatamente aqui, em Salvador. Assim escreveu Fuchs, no seu diário:

“O Maitairoa seguiu quase em linha reta rumo ao seu destino. O que ia nos animando era pegarmos as primeiras estações de rádio da Bahia em ondas médias. A música dos antigos e novos baianos ia entrando por nossos ouvidos, a princípio causando grande animação, mas ao final de alguns dias, provocando sinais de saturação, pois as mesmas canções eram repetidas ao infinito. O Maitairoa parecia balançar ao ritmo do samba-reggae, e foi com grande alegria que avistamos à proa a silhueta da Cidade Alta. Nossa travessia estava terminando. Daí para frente, seria só diversão. Afinal, estávamos chegando à boa terra. (…) Ancoramos ao lado do belíssimo forte São Marcelo, cercados por uma flotilha imensa de barcos estrangeiros, na maioria franceses.”

Nesse ponto, o livro está apenas no meio. A aventura prossegue até as Malvinas, lá no extremo sul das Américas, no mar gelado, que lhes reserva uma dura supresa, com danos para a embarcação. Isso acontece quando se planeja sem dispor de todas as informações. Quem viaja precisa ter o máximo delas, antes de por os pés fora de casa. Este é o segredo que separa uma experiência feliz e inesquecível, de um drama que se faz tudo para esquecer ou de uma tragédia que não se vive para lembrar. Mais importante que dinheiro, é informação. Excelentes excursões podem ser feitas com pouco dinheiro e boa saúde, quando se sabe o que fazer, como proceder, em cada momento e lugar. Viajar sem informação é viajar com problemas.

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Vamos encarar assim: a vida é uma viagem. Nós chegamos na Terra com muita saúde, mas sem qualquer informação. Se nossos pais também não têm informação, é grande o nosso risco de perder a saúde e até a vida, antes mesmo de estarmos capacitados a buscar informação por nossa conta. Não é outra a causa da mortalidade infantil. Recentemente, ouvimos e lemos números estarrecedores, como o de 5 milhões de crianças que morreram, no mundo, inclusive aqui, com diarreia, porque alguém deixou que se contaminassem com bactérias oriundas de fezes. Terrível ignorância. As pessoas estão confundindo tudo, achando que a caridade é dar dinheiro. A caridade é não dar dinheiro, mas dar informação.

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Passei o mês de fevereiro de 1997 na praia, na ilha de Itaparica. Andava diariamente na areia, de modo que conheço, hoje, cada metro, entre Conceição e Tairu. Não me limitei, contudo, ao esforço físico. Cada coisa que se vê, cada experiência que se vive, é um dado importante a ser processado no cérebro, na permanente busca do conhecimento, que oscula a sabedoria. Uma semana assim, comecei a notar, na areia, junto ao lixo trazido pelo mar, uma ou outra boneca. A primeira, completamente vestida, parecia o brinquedo de uma menina de classe média alta, talvez estrangeira. Caira de algum iate, pensei. Depois, uma de pano, tipica, feita em casa. Mais uma, nua, de plástico. Outra… mais outra… aos pedaços, uma perna aqui, um braço ali…

— Será se tem alguém trabalhando com feitiçaria, na praia? – perguntei a minha mulher, companheira de caminhadas, já achando que tinha boneca demais e não era possível que todas elas estivessem caindo de mãos infantis, dos veleiros.

Dias depois, minha cunhada Emília, que é artista plástica e restauradora de arte e sabe de coisas que nem desconfio, falou-me, sorrindo:

— São os presentes de Iemanjá!

Estava claro como água da fonte. Dias depois do 2 de fevereiro, as correntes marítimas litorâneas, tangenciando o Rio Vermelho, levam tudo para a ilha de Itaparica. Por isso, Iemanjá nunca devolve os presentes, ali, no Rio Vermelho. Vão todos para a ilha. De fato, assim informado, passei a prestar atenção aos outros objetos daquele lixo marítimo. Lá estavam pentes, muitos pentes, azuis, amarelos, avermelhados, novinhos, como se tivessem acabado de sair da loja de miudezas. Frascos de perfume barato, também. Não lhes vou descrever o lixo inteiro, porque tinha de tudo que se usa nas praias de Salvador, inclusive camisinhas e seringas descartáveis.

Perdoem-me os pescadores do Rio Vermelho, mas Iemanjá devolveu os seus presentes e pelo que ouvi de gente que está todos os anos em Itaparica, também o fez em 1996, em 1995, em 1994… O grande problema da informação é que, ao acabar com a ignorância, acaba com alguns sonhos. Eu sofri muito, por volta dos 11 anos, quando tive a certeza de que eram meus pais que colocavam nos meus chinelos, o presente de Papai Noel. A gente sofre, mas não tem por que lamentar, pois, ao mesmo tempo, cresce e passa a ver o mundo como ele é. Ignorante, seja criança ou não, não anda com os próprios pés e está sempre dependendo de quem o leve para todos os lugares. Alguns destes… muito ruins.

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O roteiro de uma procissão. Cultura histórica enriquece visita a uma cidade que oferece muitas opções de prazer intelectual. * O centro histórico da Cidade do Porto é muito parecido, nos seus elementos, ao centro histórico da Cidade do Salvador. * A procissão do nascimento de D. Maria Teresa, filha de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, pode ajudar o turismo. * História, arquitetura e religião, devidamente preservadas, são ricos mananciais que alimentam fluxos turísticos mundiais.

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Já tinha despachado as malas e fui gastar os últimos escudos que estavam no bolso, comprando jornais portugueses, na livraria do Aeroporto Sá Carneiro, da cidade do Porto. Era 6 de Agosto de 1995. Muitas páginas descartadas, fiquei com algumas, para futura digestão. Entre elas, uma do tabloide Público, um dos jornais diários mais lidos daquela terra, com sobretítulo “Memória da Cidade” e título “Festa no Porto: nasceu a infanta”. O texto, assinado por Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves, começa assim:

“O nascimento, a 29 de abril de 1793, da primeira filha dos príncipes do Brasil – D. João (futuro D. João VI) e D. Carlota Joaquina – motivou no Porto, como em muitas cidades e vilas de Portugal e do Brasil, grandes festejos…” Mais adiante: “A notícia do nascimento chegou ao Porto no dia 2 de Maio, uma quinta-feira, às 9:15 hs da manhã…”

Três dias a cavalo. Imagino a ansiedade do mensageiro, que partira de Lisboa para fazer o anúncio daquele evento. Quanto tempo depois, chegara a notícia ao Brasil, então província de Portugal? Quanto demorara, para atingir as vilas e espalhar-se? Temos de nos despojar dos nossos conhecimentos e condicionamentos, desta era do avião a jato e da comunicação por satélite, para compreender aquela condição de afastamento do local das ocorrências. Pensar nisso é bom exercício intelectual…

Ferreira-Alves informa que as comemorações na cidade do Porto alongaram-se até o penúltimo dia de julho, com cerimônias religiosas que começaram no dia 9 e incluíam uma procissão vespertina, seguindo o trajeto tradicional da que se fazia no dia do Corpo de Deus, citando, em sequência, as ruas do cortejo, desde a Sé e a esta retornando. Como acho que, mais cedo ou mais tarde, os leitores deste texto irão à cidade do Porto, porque não se pode compreender a cidade do Salvador sem conhecer Portugal e Galícia, ouso apresentar o roteiro daquela procissão, certo de que, os que isto lerem e lá forem, farão o mesmo percurso a pé, mirando cada fachada, sentindo cada pedra no chão, falando com uns e com outros, parando para “sacar fotos” e imaginando cada coisa no seu tempo, com as alterações impostas pelas necessidades dos que atravessaram esses séculos.

Começar pela Sé significa visitá-la e ao seu museu. Minha experiência diz, que, tendo-se sorte, ouve-se o seu órgão. Construída nos séculos XII e XIII (vários estilos), ganhou um claustro gótico no século XIV e loggia no XVIII. Como é necessário deter-se para apreciar toda a obra de cantaria, talha e azulejos, pode-se deixar a visita para o fim do roteiro, iniciando-o no meio da manhã. Diz Ferreira-Alves: “A procissão saia da Sé em direção ao Arco de Vandoma e Santa Ana, descia a Rua dos Mercadores, passava pela Praça da Ribeira, Rua Da Fonte Taurina, Terreiro e S. Nicolau, subia a rua das Congostas até S. Domingos e regressava, pela Rua das Flores e pela Rua Chã, ao ponto de partida”. Fazendo-se isso no verão, como o fiz, quando o sol se põe além das 22 horas, não se precisa ter pressa e pode-se viver passo a passo, todo o roteiro, com prazer, consciência e ritual. Fazer turismo, assim, é uma experiência que se renova a cada lembrança, prolongada para todo o sempre.

É verdade, que nem tudo está como antes e algumas ruas até já mudaram de nome, porque nem sempre, em qualquer lugar do mundo, se tem preservado o testemunho histórico-arquitetônico, muitas vezes em nome de um “progresso”, que, em verdade, pode e deve ocorrer em novos lugares, sem destruir os marcos de velhas estéticas, de antigos costumes ou de importantes eventos. Desde que os arquitetos fizeram-se urbanistas e entenderam que é necessário “intervir” nas cidades, quer pela necessidade de fazê-las funcionar melhor, quer pela busca de uma interação social qualquer, as vezes na direção de uma utopia, muitos conjuntos que eram patrimônio da humanidade acabaram virando avenidas, praças ou modernos shopping centers. Essa questão está inteira no livro Cidade, Povo e Nação (Editora Civilização Brasileira), uma coletânea de textos organizada por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Robert Pechman, onde Catherine Bruant diz que a palavra “urbanismo” surge com um novo conceito de cidade que é objeto, entre uma postura culturalista (considerando a história) e outra, progressista (rompendo com o passado). As administrações urbanas, hoje, visando atrair turistas com seus dólares, restauram os centros históricos, casa a casa, muro a muro, pedra a pedra, pagando as vezes muito caro pela inconsciência e omissão das suas antecessoras.

Assim, ainda vale atravessar o Atlântico para fazer aquele roteiro, mesmo que, no início, partindo do terreiro da Catedral (Sé) e descendo pela esquerda, para a Rua de Santana, se passe por homens de comportamento suspeito e prostitutas sentadas no passeio. Depois desta, ainda à esquerda, fazendo meia-volta, toma-se a Rua dos Mercadores e desce-se ela, inteira, até a Praça da Ribeira, onde se deve demorar, explorando aquele pedaço da margem do rio Douro, nos seus melhores cenários para fotografia. Ali, à esquerda, é indispensável percorrer toda a pequena Rua de Cima do Muro (uma fileira de restaurantes típicos de peixes e frutos do mar), até o Cais dos Guindais, onde começa a Ponte D. Luís I, voltando-se pelo Cais da Ribeira até o Cais da Estiva, que se prolonga pelo Muro dos Bacalhoeiros, mas tem à direita a Praça da Ribeira, com sua Fonte Taurina, nome da rua que se segue e onde se pode visitar a casa onde nasceu o Infante D. Henrique, o Navegador.

Daí, o roteiro da procissão encontra o Largo do Terreiro e a Rua S. Nicolau, ao fim da qual atravessa a moderna Rua Infante D. Henrique, onde estão as igrejas de São Nicolau e de São Francisco (Séculos XIV e XV), esta de visita obrigatória e demorada, internamente comparável à nossa, em Salvador da Bahia, com toda aquela talha e todo aquele ouro (século XVIII), antigamente acoplada a um convento, que foi destruído em 1832. Não mais havendo Rua das Congostas, sobe-se pela Praça do Infante D. Henrique (seu monumento ao centro) e Rua Ferreira Borges, onde outra visita obrigatória (Palácio da Bolsa, do século XIX) permite ver-se um “salão árabe” inspirado no famoso Palácio de Alhambra (Granada, Espanha). No Largo de São Domingos, começa a Rua das Flores (ver Igreja da Misericórdia, obra em estilo barroco e rocaille, do século XVIII), que deve ser percorrida com vagar, entrando-se nas casas comerciais, que vendem desde bacalhau até joias finas, assim com livros usados (alfarrabistas). Para se passar desta para a Rua Chã, atravessa-se a Praça Almeida Garret, onde está a estação ferroviária de S. Bento, com seus belíssimos azulejos, e a Rua Loureiro. Ao fim da Rua Chã, vê-se a Catedral, fim do roteiro, cujo percurso pode ser enriquecido na medida em que se procura conversa com as pessoas na rua e se observa as fachadas novecentistas dos sobrados, as vezes com varais e roupas penduradas, a secar. Quem não for turista de excursão, pode tirar um dia para este programa, consciente, contudo de que há muitos outros para se fazer na velha Cidade do Porto, que é tão bonita quanto a do Salvador, da Bahia, também obra de portugueses…

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(esta seção está em fase de seleção de textos e montagem)