MEMÓRIAS
Neste espaço, uma pequena amostra do registro do que Adinoel lembra do seu passado pessoal, dos lugares onde viveu e por onde passou, das suas experiências profissionais, das pessoas com quem se relacionou… e principalmente, com Vera.
As imagens mais antigas. O registro do passado exige pesquisa, para ter-se uma informação rigorosamente científica. Quando se trata do nosso passado, contudo, podemos começar apenas com nossa memória, que falha por vários motivos, inclusive pelo fato de que as vezes pensamos lembrar do que vimos e fizemos, quando, realmente, lembramos do que nos disseram, sobre nós. A mais antiga imagem que tenho, da minha vida, na memória, é do início dos anos 40, na chegada da família à casa alugada em Praia Grande, no subúrbio ferroviário de Salvador, com os móveis ainda no passeio da rua, quando um gato pulou e quebrou um jarro de vidro azul claro e transparente, que tinha sido colocado sobre uma mesa baixa. O mundo estava em guerra e havia uma base militar em Paripe, ali perto, onde meu pai trabalharia. Lembro-me também de um móvel de quarto, que tinha sido colocado ali na frente da casa. Sua forma era a de um armário de uma porta, com gavetas ao lado e sobre estas um tampo roxo de vidro opaco, acima do qual havia um espelho. Nessa cena da mudança, não há pessoas, nem outros objetos. Dessa casa, recordo ainda que havia uma escada externa, ao fundo, da porta da cozinha diretamente para a praia, na Baía de Todos os Santos. Lembro-me de descer essa escada, vendo os degraus e chegando à areia com conchas, pedras soltas e nada mais. Por informação de terceiros, sei que ficamos ali pouco tempo, esperando vagar uma casa maior, em Periperi, a poucas centenas de metros de Praia Grande.
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O trote geral na Universidade da Bahia. Em 1959, a Escola Politécnica ocupava um prédio baixo de longa testada, na Avenida 7 de Setembro, quase em frente ao Largo de São Pedro. Logo depois do vestibular, os calouros, recém-aprovados nesse exame, sofriam os martírios impostos pelos veteranos, que os humilhavam sem piedade. Eu tinha passado no vestibular de Engenharia Civil e por uma razão ou outra, não fui dos mais sofredores. Era comum usar-se um pó chamado roxo-terra, que se misturava com água para pintar barras de paredes. Jogado sobre as roupas dos calouros, esse pó sujava bastante. Com medo do trote diário, em cada faculdade, havia calouros que não iam para a aula, nos primeiros dias do curso. Outros saiam mais cedo, tentando passar pelos corredores e pelas portas antes de “bater” o fim das aulas, quando os veteranos saiam de suas salas a gritar “pega o calouro”, “é hoje”, “calouro burro”, tudo guturalmente, com vibração forçada, para aterrorizar a todos, que corriam ou escondiam-se como e onde podiam. Aos poucos, todos os calouros tomavam seus trotes individuais. Em pequenos grupos, os veteranos corriam atrás de cada um, até na rua, cercando-os para sujá-los e humilhá-los, pondo-os, por exemplo, de joelhos no chão, fazendo-os confessar serem “burros” e outras coisas ou a dizerem frases que não queriam sobre si mesmos. Nesse momento, um dos veteranos, com a tesoura, tirava pedaços grandes da cabeleira do calouro, danificando-a tanto, que este era obrigado a ir numa barbearia e mandar raspá-la, usando uma boina de feltro da cor do anel de formatura de cada escola, para minimizar os danos visuais impostos à cabeça de cada um.. No nosso caso, da Engenharia, a boina era azul marinho. Usá-la era sinal de que já se tinha tomado o trote individual e isso costumava liberar o calouro de outras perseguições, mas não era uma garantia. Por outro lado, usar a boina, na rua, era motivo de orgulho, porque se mostrava a todas as pessoas que se tinha passado no vestibular e se cursava, então, a universidade. Só após o chamado trote geral, contudo, chegava a tranquilidade. Assim se passavam os primeiros dias de aula, a cada ano, durante os quais se preparava a grande manifestação de rua, um desfile do qual deveriam participar todos os calouros, cada faculdade num dia. Os da Politécnica desfilavam pela Avenida 7 de Setembro, com faixas geralmente de críticas e alguma fantasia no corpo e nos gestos, tudo conforme as instruções dadas pelos veteranos, que acompanhavam o desfile, inclusive para impedir a fuga de qualquer calouro. Alguns pintados no rosto e no peito e e exibindo placas ou faixa de protesto contra o “Reitor dos Bailarinos”, que não era outro senão o fundador da Universidade da Bahia, o Prof. Edgard Santos, odiado pelos alunos da Politécnica (Engenharia), porque canalizava verbas para as novas faculdades de Música, Dança e Teatro, deixando aquela velha Escola sem recursos para atender suas necessidades mais urgentes. Coube-me carregar uma placa com tal mensagem (ver foto). Ninguém sabia o dia do trote geral, justamente para pegar-se os calouros de surpresa e nenhum deles deixar de ir à aula naquele dia. Era comum ouvir-se um veterano gritar “é hoje”, no intervalo entre as aulas, levando os calouros a sairem mais cedo e a descobrirem, no dia seguinte, que não tinha acontecido o trote geral e que perdera aula(s) sem motivo. Era uma prolongada agonia, de modo que, ao acontecer, de fato, o desfile, todos sentiam um certo alívio, apesar do sofrimento com as humilhações, em público. Quem andava pelas ruas parava nos passeios para ver os calouros universitários passarem com o mesmo ânimo de Cristo na Via Sacra. No dia, que poucos veteranos sabiam, do trote geral, aqueles se posicionavem desde cedo, nas saidas do prédio, para evitar a fuga. Os calouros eram retirados de suas salas de aula e conduzidos ao Diretório Acadêmico, para serem pintados, receberem suas faixas e posicionarem-se na rua, aguardando o momento de iniciar-se o desfile.
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Em novembro de 1996, fui testemunha de uma cena de cinema, envolvendo duas duplas de tenistas, numa das “quadras” da parte superior do Bahiano de Tênis, às 6 horas da manhã. Protagonista: homem gordo com barriga volumosa, movendo-se com passos curtos e ligeiros, sem conseguir correr. Recebeu uma bola na direção do seu rosto, assustando-se e levantando a raquete para proteger-se. Assim, sem querer, rebateu a bola, que subiu muito e caiu por trás do adversário. Este, junto à rede, fez um esforço supremo para alcançá-la, tropeçando e chocando-se contra o muro da rua, inteiramente batido. O gordo, surpreso e alegre, gritou duas vezes, comemorando. Depois, afroxou-se em risos, balançando todo o corpo, sem levantar os braços. Para ele, um momento inesquecível, que não teria ocorrido, se achasse que tênis não é um esporte praticável por alguém com suas limitações físicas.
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Porta de igreja fechada. Preparados física e psicologicamente por meses para fazer o Caminho de Santiago, desde a Catedral do Porto, em Portugal, até a Catedral de Santiago de Compostela, na Galícia (Espanha), nós (Adinoel e Vera), planejamos entrar na igreja e ali orar para que a caminhada fosse bem sucedida, mas, ao chegarmos na porta do templo, em 21 de setembro de 2004, ela estava fechada (clique para ver foto). Lembrei-me de um verso de uma canção de um filme brasileiro – O Ébrio – cantada por Vicente Celestino, que se referia á porta de uma igreja (“essa porta não se fecha, contra ela não há queixa, são os braços de Jesus”). Pretendíamos partir dalí com o carimbo daquela paróquia, na cartela que os peregrinos têm de preencher para provar por onde passam, mas só encontramos aberta, às 8 horas da manhã, ali perto, uma pequena mercearia, uma casa comercial, onde carimbamos o papel, assim iniciando nossa caminhada.
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