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Bartholomeu Lourenço 2018 A ELEVAÇÃO DA ÁGUA DO RIACHO PITANGA PARA O SEMINÁRIO DE BELÉM DE CACHOEIRA (1705) POR EVAPORAÇÃO SEGUIDA DE CONDENSAÇÃO E COMO ESSE FEITO CONTRIBUIU PARA A INVENÇÃO DO BALÃO (1709) ARTIGO COMEMORATIVO DOS 309 ANOS DO AERÓSTATO Adinoel Motta Maia * Na história aeronáutica da humanidade, há notícias de observações muito antigas do voo das aves e de tentativas do homem ao imitá-las, sustentando-se no ar, com resultados não raramente traumáticos. Não queremos perder tempo – aqui e agora – com a investigação de tais fracassos. Também não devemos nos deter nas referências a ideias, desenhos e textos antigos, sobre eventos com aparelhos voadores talvez apenas imaginados e assim registrados em papel ou gravados em pedra, em peles, etc. por civilizações já extintas, como hoje fazemos ficção científica. No momento, basta a atenção que se deve dar a tais registros, até que se disponha de dados que mereçam uma análise profunda e rigorosa e resultem em experiências demonstráveis a comprovar um ato de (pretender) voar com recursos próprios. Com tal critério, nossa atenção deve se concentrar em cada antiga invenção conhecida, comprovada, por registro na sua época, para elevar na atmosfera os objetos assim voadores, utilizando seus próprios meios, não se considerando os casos de mera reprodução sólida, escultural, de qualquer coisa apenas lançada ao ar, como se faz com as pedras projetadas no espaço aéreo pela mão humana. Nossos estudos mais recentes estão a revelar, contudo, que o primeiro aparelho voador surgiu da necessidade de elevar a água dos vales para as cumeadas, no sentido inverso, portanto, do que faz a natureza, no relevo orográfico, poupando o esforço de braços, pernas e costas a sustentar recipientes pesados com água retirada dos rios e lagos para servir habitantes nos topos dos montes. Salvo descoberta que ainda possa ser feita em data posterior à deste texto, o que podemos relatar e devemos aceitar como primeiro objeto a voar com autonomia, inventado pelo homem, é o aeróstato concebido e realizado pelo jovem Bartholomeu Lourenço, um brasileiro de nacionalidade então portuguesa e hoje brasileira, nascido em 1685, na então Rua Santo Antonio – hoje Rua do Comércio – cidade de Santos, São Paulo, no Brasil, onde o padre jesuíta Alexandre de Gusmão – nascido em Lisboa – era vice-reitor do Colégio São Miguel e Provincial da Companhia de Jesus, o que o obrigava a viajar para cuidar de todas as igrejas jesuitas do Brasil, assim estando em 1667 em Belém de Cachoeira, na Bahia, onde lançava as pedras dos alicerces do Seminário que a Ordem construiria e para o qual levaria – anos depois – dois filhos do seu amigo santista Francisco Lourenço, um dos quais – Bartholomeo – que demonstraria invulgar vocação para a ciência, ali estudando e se tornando inventor, ainda no início do século XVIII, realizando uma obra hidráulica e voos aerostáticos experimentais em Belém, antes de um primeiro voo oficial no palácio da corte portuguesa, em Lisboa, testemunhado e registrado oficialmente, no dia 5 de agosto de 1709 – data esta anterior à da performante do para-raios de Benjamim Franklin (1752), que se considera erroneamente como o primeiro invento do homem nas Américas, assertiva esta que já deve, assim, ser corrigida (1). Este texto, portanto, tem o objetivo de registrar uma notícia que estamos analisando inicialmente aqui e agora, com a qual se associa a concepção de tal aeróstato – um objeto voador – a um invento anterior desse jovem português nascido em território hoje brasileiro, de elevação da água por um cano, sendo este construido e depois devidamente apresentado e anotado em órgão público oficial, em sessão da Câmara de Vereadores da Cidade de Salvador (Bahia/Brasil) realizada na data de 12 de dezembro de 1705 – três anos e meio antes do primeiro voo oficial do aeróstato – como se lê no documento a seguir, conforme publicado por essa instituição sob o título Termo de Veriação / eRezolução sobre huma peti- / cão do Seminarista Bartho- / lomeo Lourenço – e transcrito em ata (2) de 5 de dezembro de 1705, nas folhas 250 (linhas 12 a 25) a 251v (linhas 1 a 5), do livro onde eram lavradas as decisões daquela Casa, como se lê a seguir: |
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Aos doze di/- as do mez de Dezembro demil / setecentos ecinco annos, nesta / Cidade do Salvador Bahia de / todos os Santos nas Cazas da Ca- / Mara, estando em Meza de Ve- / riação oDoutor Juiz de Fora / Fernando Pereira de Vascon- / cellos, Veriadores, eProcurador a- / baixo assignados, tratarão sobem / commum despachando todas as pe- / tições, ediferirão atodos |
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Nosso propósito, agora, é demonstrar que esse invento foi fundamental para a promoção do raciocínio lógico do cientista que nascia no jovem Bartholomeu, numa outra direção, naturalmente sob o estímulo dos padres jesuitas que lideravam a pesquisa científica na educação medieval europeia e a traziam para o Brasil, desde que o padre Anchieta começou a alfabetizar os índios desta terra até então selvagem, onde e quando os homens ainda eram quase apenas animais. Neste ponto, temos de informar, de passagem, que a ida de Bartholomeu para esse seminário ocorreu por iniciativa do padre Alexandre de Gusmão, que, na sua função, em Santos, sendo amigo do pai desse jovem, convenceu-o a confiar esse seu filho aos cuidados da educação jesuita, levando-o – assim como outros seus irmãos – para Belém de Cachoeira, à margem do riacho Pitanga, um afluente do rio Paraguaçu, poderoso contribuinte da Baía de Todos os Santos, à margem da qual já estava Salvador, a cidade da Bahia, então capital do Brasil, sede política do governo português neste país, no início do século XVIII. Sem outros meandros, já devemos dizer que esse jovem “brasileiro”, então apenas considerado português do Brasil, assim estimulado, respondeu com sua poderosa mente aos esforços do seu protetor e ao conhecimento científico jesuita que lhe era passado, fazendo elevar a água do riacho Pitanga para o tanque do seminário onde estudava, vencendo um desnível de dezenas de metros, por meio de um “cano”, que registrou como seu invento. Por muito estranhar a natureza e funcionamento desse cano que muitos estudiosos (à frente dos quais Afonso de E. Taunay) consideraram mero condutor ajustado a aparelho similar ao “carneiro hidráulico” (ainda então não inventado), buscamos uma resposta, que temos agora com natural evidência: não poderia ser, a força que impulsionaria a água de baixo para cima, obtida senão da sucessiva transformação dela em vapor e em sequência, sua volta – já no tanque – ao estado líquido, sendo o “cano” não o invento, mas, apenas o elemento condutor do vapor que subia naturalmente para uma caixa fechada hermeticamente, em cuja tampa formava gotas, que se precipitavam para o fundo de tal depósito. Parece-nos realmente uma obra de genio – naquela altura do século XVIII – fazer subir a água em ebulição, aquecendo-a e a transformando em vapor, que se elevava naturalmente (assim são formadas as nuvens no céu), mas, naquele caso, direcionada pelo cano (este o invento declarado) – construido, apoiado, no solo da encosta do monte – para ter destino pre-determinado: o tanque no interior do qual o vapor se condensava em gotas e transformava em “chuva”, assim o enchendo. Assim se revelava o genio na pessoa de um adolescente que teve a ideia e a realizou sob a orientação técnica e científica competente e já conhecida então, dos padres jesuitas. Logo após o registro feito pela Câmara de Vereadores, foi este confirmado pelo Padre Alexandre de Gusmão através de uma certidão, nos seguintes termos: Certifico eu, P. Alexandre de Gusmão, da Companhia de Jesus, Reitor do Seminário de Belém, como é verdade que Bartolomeu Lourenço, seminarista que foi do dito Seminário, fez com sua indústria subir a água de um brejo do dito Seminário, que fica sobre um monte, por um cano de quatrocentos e sessenta palmos de altura, obra de grande admiração e utilidade para o dito seminário; a qual eu vi correr e todos os mais do dito Seminário, assim religiosos como Seminaristas. E por passar assim na verdade, e me ser pedida esta, por mim assinada e selada com o selo de meu ofício. No mesmo Seminário de Belém, aos 18 de janeiro de 1706. (3) Parece-nos evidente, que assim conhecendo a força do calor na transformação da água em vapor a se elevar e na volta deste a água, o jovem Bartholomeu Lourenço logo concluiria que esse calor poderia também elevar o ar, que seria contido, não mais por um cano, mas por uma caixa esférica, uma bola, que, solta, subiria com ele. Ousamos afirmar, aqui e agora, que o balão (palavra derivada do francês ballon, que significa bola) – seja qual for o seu tamanho – foi inventado naquele momento em que o nosso luso-brasileiro, muito inteligente – um diamante que os jesuitas transformaram em brilhante – descobriu a aerostação, imitando a mãe natureza que criou as nuvens, aproveitando as correntes aéreas ascendentes geradas pelo calor do Sol a evaporar as águas do solo. Para um jovem atento e inteligente, com orientação científica, tudo isso foi muito fácil de fazer. Não poderia ser outro o seu passo seguinte. Com essa orientação e o apoio do padre Alexandre de Gusmão – um amigo do seu pai – ele desligou-se do seminário de Belém de Cachoeira e decolou por meios próprios para dedicar-se a suas esferas voadoras, os primeiros aeróstatos, que nas palavras do poeta português Tomás Pinto Brandão, já teriam voado experimentalmente na Bahia:
Teria esse poeta estado na Bahia entre os anos de 1682 e 1694, onde vivera em companhia de outro poeta, o baiano Gregório de Matos – o Boca de Inferno – com o qual comungava no estilo satírico destruidor. Poesia a parte, importa o documento que afirma ter o jovem Bartholomeu feito voar o seu aeróstato quando ainda estava na Bahia, de onde o poeta – por causa de sua lingua viperina – teria sido deportado em 1694 para o Rio de Janeiro e daí para Angola, depois retornando para Portugal, onde reencontraria Bartholomeu com seus balões a voar em Lisboa e publicaria os versos acima transcritos. Em 1694, Bartholomeu tinha apenas 9 anos, ainda não estava em Belém e assim Pinto Brandão não o viu voar na Bahia, de modo que só soube desses voos em Lisboa, assim como do motivo pelo qual teria sido demitido do seminário como noviço, aos 15 anos (em 1701), conforme registrado no Catálogo da Companhia de Jesus em 1705. Havia, portanto, um conflito em Bartholomeu, entre a Ciência e a Religião. Como se sabe, não só em Bartholomeu…, que, no entanto, saindo do Seminário de Belém, manter-se-ia padre, indo em busca da ajuda do Rei, em Lisboa, e dos doutores da Universidade de Coimbra, onde não tinha idade para se matricular, mas já poderia assistir aulas, na esperança de alimentar o sonho que surgia, de fazer o homem voar. Seus dois inventos se mesclavam e o privilégio obtido na Câmara de Vereadores para o processo de elevação da água, o levava ao Conselho Ultramarino – criado para coordenar as políticas da Colônia – e o confirmava para Portugal e colônias ultramarinas, tornando-o conhecido pelo Rei, do qual recebeu carta em 1707, enquanto ordenava-se padre em Salvador, chegando como tal em Lisboa, iniciando o primeiro ano de seu curso na Universidade de Coimbra em 1708. No início de 1709, assinou pedido de privilégio para o seu aeróstato, ao Rei D. João V, que o respondeu em 19 de abril do mesmo ano, concedendo-lhe alvará de mercê e com ele o atestado de já ter feito prova prática de funcionamento do artefato, de modo que ficou marcada uma exibição para a corte, o clero e o povo, meramente informativa. Foi nessa trajetória, que chegou ao palácio real onde faria sua primeira demonstração oficial, na presença do núncio apostólico – o Cardeal Conti – que mandou uma notícia para o Vaticano, em cujo museu pode ser hoje vista e lida. Transcrevo abaixo um trecho do nosso artigo comemorativo do tricentenário desse voo, publicado na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, em 2009. “Quando, finalmente, em 3 e 5 de agosto de 1709, o Rei abriu a Sala das Embaixadas da Casa da Índia para ali ser feita a demonstração da ascensão do globo esférico de papel pardo e grosso envolvendo talvez uma armação de arame a sustentar uma tigela de cerâmica na qual haveria uma fonte ignea, sob a boca por onde o fogo aquecia o ar dentro do aeróstato, ocorreu um fracasso (no dia 3), porque o conjunto incendiou-se ainda no chão, mas em seguida (dia 5), o “instrumento” saiu das mãos do padre e subiu lentamente por cerca de quatro metros, ameaçando chocar-se contra o teto e cortinas e provocar um incêndio, razão porque os serviçais atentos o derrubaram”. Estavam presentes a essa demonstração, além do Rei D. João V e da Rainha Dona Ana, os embaixadores credenciados e os membros da corte, também o Cardeal Conti, Núncio Apostólico, que, em 1771 seria o novo Papa, Inocêncio XIII. Impressionado com a experiência, este emitiu um “Foglietto d’avisi” em 18 de agosto de 1709, do Núncio Apostólico em Lisboa para o Secretário de Estado do Vaticano (Nunciatura de Portogallo, Livro 61), atestando que “um corpo esférico de pouco peso (…) elevou-se quatro metros”. Essa peça histórica encontra-se em exposição no Museu do Vaticano, tendo sido mostrada recentemente em exposição no Rio de Janeiro. Este texto, basicamente informativo, é também o anúncio da nossa descoberta, feita logo após o esforço realizado na comemoração de 2009, para comemorar o terceiro centenário desse primeiro voo de um instrumento feito pelo homem, quando escrevemos artigos e pronunciamos palestras, inclusive em Belém de Cachoeira, na igreja do mesmo seminário ao qual o menino Bartholomeu chegou e onde cresceu, sob a proteção do padre Alexandre de Gusmão (sobrenome que seria acrescentado por Bartholomeu ao seu nome, quando viveu em Lisboa e Coimbra), educado por jesuitas que professavam mais do que a Fé, a Ciência transformadora de animais humanos em intelectuais, na direção da sapiência de Deus, que é a Consciência do Universo, infinito e eterno. Talvez possamos ou devamos afirmar que, se não houvesse o problema de elevação da água para o Seminário de Belém, o jovem Bartholomeu Lourenço não teria descoberto a aerostação. Vamos todos pensar um pouco mais nisso. (A.M.M. 27 de julho de 2018) (*) Adinoel Motta Maia é engenheiro civil e professor fundador, já aposentado, das disciplinas “Aeroportos”, “Evolução dos Transportes” e “Fundamentos de Astronomia e Astronáutica”, na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Fundou a Psíquica, como a ciência que estuda os quanta de consciência em velocidade superior à da luz, até infinita, que constituem as chamadas energia e matéria escuras. |

os requerimê- / tos, deque mandarão fazer este Ter- / mo que assignarão; eeu Manoel / Pessoa de Vasconcellos que o escrevi, / Enadita Veriação sendo vista hu- / ma petição de Bartolomeu Louren- / co emque propoem que elle commui- / (Fls. 250V) com muito particular cuida- / do digo particular estudo, eex- / periencia, que fez do Segre- / do defazer subir agoa, toda a / distancia ealtura aque sequi- / zer Levar, eque com effeito a fez / oSuplicante subir no Siminario de Belém / quatrocentos esecenta palmos / como mostrou por uma Certi – / dão que junta aSobredita peti- /ção offereceo, passada pelo mui- / to Reverendo Padre Alexandre / deGosmão, Reitor do dito Simi- / nario, eque com omesmo invento / sepodera fazer moer os Engenhos / deBeira mar com a agoa del- / lê, eaeste respeito todos os Enge- / nhos que tiverem Tanque, Fon- / te ou Rio, ainda que esteja em / parte muito inferior; epelo con- / seguinte trazer agoas para Cha- / farizes, eFontes para utilidade / econveniencia do Serviço dos Po- / vos, e grandeza desta Cidade, eas / (Fls.251) eassim, respeitando atão u- / til proposta, pedia, que desco- / brindo o Supplicante o Segredo / do dito invento, emsinando pa- / ra que se possa usar delle, onão / podesse fazer nenhuma Pessoa / nem lograr asua utilidade, sê / pagar ao Supplicante quatro / centos milreis porcada Enge- / nho, ou obra que fizer naforma / sobredita, visto dever-selhe re- / munerar o trabalho de seus Estu- / dos; oque visto poreste Senado, e / considerando não rezultar nen- / hum prejuizo em se lhe admitir / adita proposta authori- / zada eapprovada pela Certidão / daque atraz se faz menção, Con- / sedemos Licença ao Suplican- / te condições que / (Fls.251V) que propoem epede na sua / petição enenhuma pessoa de / qualquer qualidade que seja / poderá num por si, nem por ou- / trem usar do dito invento, sempa – / gar ao Supplicante o Donativo / que pede, premio tam merecico / ao seo trabalho, no caso que tenha / effeito, edetudo mandarão fazer / este Termo que assignarão; Eeu / Monoel Pessoa de Vasconcellos / Escrivão da Câmara o screvi. (As.) Pereira de Vasconcellos, Pa- / lhares, Franca, Aranha.