BRASIL – UM PAÍS SEM FERROVIAS
Todo o povo brasileiro foi tomado de surpresa, nos últimos dias, por uma ação de motoristas de caminhão, livremente ou induzidos a parar os próprios véículos nas estradas (sendo autônomos ou empregados), assumindo os riscos de uma atitude ilegal, levando os veículos para as faixas de tráfego e ali os estacionando, reduzindo a capacidade de tráfego dessas rodovias e prejudicando a circulação de veículos de menor porte ainda com algum combustível em seus tanques, assim impedindo o transporte de mercadorias – inclusive de combustíveis e de alimentos – necessárias ao consumo humano, dessa forma promovendo uma corrida de proprietários de automóveis e motocicletas aos postos de gasolina, esgotando o estoque desse produto em todo o país, assim como das donas-de-casa aos supermercados. O sucesso dessa operação foi tão grande, que, além de acuar o governo federal e ignorar os estaduais e municipais (o caos atingiu o transporte urbano), agrediu todos os cidadãos brasileiros, que ficaram privados do seu direito constitucional de circulação e transporte, assim como temerosos de não adquirir gêneros de primeira necessidade, ao se esgotar os estoques dos mercados. Só há uma palavra para definir esse cenário: CAOS. Não estamos, com este texto, julgando pessoas ou motivos, mas apenas registrando um fato para salientar suas causas.
Este fato nos leva obrigatoriamente a apontar como causa principal dessa tragédia nacional a omissão histórica de todos os governos anteriores e atual, neste País – inclusive os estaduais – que têm atendido aos interesses econômicos privados, em detrimento da segurança nacional e das necessidades da população, dotando nossa estrutura de transportes apenas de vias e terminais rodoviários, assim restringindo os modos ferroviário e aquaviário à movimentação de minérios e outros itens de maior peso. Fui aluno e discípulo do Prof. Vasco de Azevedo Neto – meu mestre, já falecido – na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, um incansável estudioso e batalhador em prol da coordenação dos transportes e da implantação de ferrovias, inclusive uma que estudou e jogou em planta, ligando os oceanos Atlântico (no Brasil) e Pacífico (no Peru) – a transversal sulamericana – lutando contra todos os interesses dos que se elegem e mantém no poder e promovem a ignorância do povo com o único objetivo de enganá-lo e reduzi-lo a gado eleitoral.
Este ato surpreendente – não houve explicação prévia dos que o promoveram – próprio de desconhecedores das suas consequências econômicas e sociais, deve ser respondido com a adoção imediata de providências no sentido de implantar a coordenação dos transportes no Brasil, priorizando as modalidades ferroviária e hidroviária – como ocorre em todo o mundo civilizado – mormente em países de dimensões continentais, como é o nosso.
Assim, o que há de mais urgente neste País, hoje, é salvar o que ainda existe de conhecimento tecnológico, no ensino e na educação, para que esta situação de manobra entre pessoas de baixa escolaridade, para fins políticos, se acabe. As universidades brasileiras – como todas as demais escolas – foram invadidas por políticos cuja meta é a aprovação em massa dos alunos para abrir vagas no ano seguinte, com objetivos meramente sociais, comprometendo o conhecimento dos problemas e sua solução, como a de implementar, com urgência, entre outros, o projeto (já há estudos prontos) de construção de ferrovias com rede de distribuição sobretudo de combustíveis e alimentos – além dos minérios e outros produtos de exportação – administrada pelo Estado, para que os interesses privados não sufoquem os cidadãos brasileiros.
Salvador, Bahia, 27 de maio de 2018
Adinoel Motta Maia – Engenheiro Civil, professor (aposentado) de Estradas, de Aeroportos e de Evolução dos Transportes, na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia.
