Editorial

O OLIGOPÓLIO DOS EDITORES ACADÊMICOS

NA ERA DIGITAL

Diz Vincent Lariviére (pesquisador da Universidade de Montreal, Canadá), num texto intitulado The Oligopoly of Academic Publishers in the Digital Era:

“As editoras desempenharam um papel vital na disseminação do conhecimento científico na “era do papel impresso”, porém, é questionável se eles ainda são necessários na era digital de hoje.

Enquanto publicação em revistas de alto fator de impacto for um requisito para os pesquisadores obterem cargos, financiamentos para pesquisas e reconhecimento de seus pares, as grandes editoras comerciais manterão o seu domínio no sistema de publicação acadêmica.”

Esta é apenas uma das muitas manifestações, que, há anos, estão sendo registradas, demonstrando uma reação de pesquisadores contra esse dito oligopólio internacional, que pretende controlar ou já controla a produção acadêmica mundial, em defesa de uma necessária preocupação com a seriedade e a competência das pesquisas científicas e dos relatórios produzidos com bases nela.

Em áreas como a da Medicina e da saúde em geral, com repercussão no comércio de medicamentos e de alimentos, por exemplo, essa preocupação é válida e salutar, porque envolve riscos de vida, por um lado, e de exploração econômica da saúde, por outro. Não é este o caso, no entanto, das áreas em que todos os textos conclusivos de pesquisa são bem vindos, por acrescentarem novos dados ou mesmo novas versões para o conhecimento já estabilizado e não raramente petrificado, que impede o avanço das idéias e das tecnologias, com evidente paralização da evolução do conhecimento, em benefício apenas de estruturas arcaicas sociais, econômicas e até científicas. Não raramente, exigências descabidas são feitas para manter a censura contra os agentes da evolução e do desenvolvimento dos povos e dos indivíduos que se dedicam – até por toda uma vida – à crítica do status ideológico, seja este filosófico ou pragmático, assim tentando petrificar conhecimentos provisórios como verdades eternas, em benefício da ignorância com a qual muitas pessoas e organizações se solidificam em posições de poder religioso, político, econômico e até científico.

Evidentemente, contudo, algum controle deve existir para evitar – pelo menos – que meros curiosos pesquisadores de fim de semana se apresentem como cientistas ou mesmo autênticos estudiosos que cultivam as artes, a filosofia e a ciência. Evita-se isso com a publicação em rodapé dos dados que credenciam o pesquisador. Também é evidente que tal cuidado não se justifica quando essa cultura é feita por pessoas notoriamente credenciadas pelos créditos já obtidos em suas áreas profissionais e por estudos comprovados, com base em seus currículos e nos resultados obtidos por pesquisas reconhecidas nos meios acadêmicos e no seio das instituições sérias da sociedade.

O que fica, de todo este discurso, é a necessidade mundial de uma nova postura intelectual em prol de uma revisão total dos modelos adotados milenarmente e que estão comprovadamente dissociados da realidade universal, mantidos por interesses de conservação do status quo das estruturas políticas e sociais que beneficiam – na História – os gananciosos, os violentos e os falsos detentores da verdade. O nosso mundo – o planeta Terra – atravessa um momento crítico de falência total de suas instituições religiosas, políticas, sociais e econômicas baseadas, de um lado na caridade permissiva da acomodação generalizada (paralização) dos ignorantes (animais humanos) e do outro na exploração sem limites dos recursos naturais em benefício da riqueza descontrolada dos egoistas.

Embora se deva continuar exigindo o credenciamento de quem escreve para o público – seja jornalista ou cientista – já não é admissível reservar apenas para as revistas científicas indexadas o aval dos artigos resultantes de pesquisas realizadas em instituições públicas e privadas, ou mesmo na intimidade do laboratório ou do gabinete de pesquisadores capacitados por seus currículos, podendo estes publicar seus artigos não apenas por meio de órgãos impressos, como através de suportes eletrônicos. Em síntese, quem dá qualidade ao texto é seu autor e não o suporte onde é publicado.

31 de janeiro de 2018

Adinoel Motta Maia

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