Consciência e Inconsciência

Poderíamos simplificar as coisas, dizendo apenas que a Realidade é Consciente e a Atualidade é Inconsciente, mas as coisas não são tão simples. Um parâmetro necessário e definidor seria o de que não há consciência sem o tempo e não há inconsciência com o tempo. Esta evidência é realmente simplificadora, mas nela está embutida uma dificuldade: a consciência do agora, no tempo zero.

A atualidade e a realidade são relativas. A atualidade para o homem consciente do seu corpo num instante (tempo zero) é a realidade para um micróbio dentro dele, cuja consciência desse corpo demandaria um “espaço-tempo” para ele muito grande. Igualmente, a realidade para o homem é a atualidade para um ser muito grande, um macróbio, o nosso pequeno universo, dentro do qual nos encontramos.

O diagrama abaixo ilustra um exemplo da relatividade entre a atualidade e a realidade. Suponhamos que um homem pisa no solo com um sapato que tem trinta centímetros. Faz isso no tempo zero, isto é, ocupa os trinta centímetros num instante, sem gastar tempo algum. Se esse homem vive o presente nessa distância, uma formiga F desloca-se de A para B numa velocidade pequena, digamos, de 30 centímetros em 5 minutos (3,6m/h). Chegando ao meio do percurso, ela tem, naquela caminhada, um passado de 2,5 minutos e um futuro de 2,5 minutos, vivendo cinco minutos numa realidade física, para percorrer um espaço que o homem ocupou sem gastar tempo algum. É importante notar, no entanto, que, se o homem observar a formiga fazer o caminho, viverá uma realidade também de 5 minutos.

presente

Está claro que, aquele espaço de trinta centímetros é ATUAL para o homem que pisa nele, mas é REAL para o mesmo homem que observa a formiga a percorrê-lo. Assim, esse homem que tem consciência dos trinta centímetros (apenas no espaço tridimensional), ao pisar (tempo zero), tem consciência do “espaço-tempo”, ao observar a formiga. Assim, a consciência do espaço, sem o tempo, na ATUALIDADE não se manifesta na consciência espaço-temporal do homem, na REALIDADE. Ocorre apenas no seu Inconsciente. Diríamos que a INCONSCIÊNCIA, na REALIDADE, é uma forma de CONSCIÊNCIA, na ATUALIDADE. A Consciência no homem, por exemplo, seria, assim, um estado do seu Inconsciente.

Quem mantém a consciência da realidade não consegue concentrar-se na atualidade do presente eterno, salvo se aprender a fazê-lo com a meditação, eliminando o passado e o futuro, como se entrasse em coma, caso em que a consciência neural pára no tempo, com o cérebro comandando apenas as funções vitais do corpo. Em outras palavras, penetrando no Inconsciente11.

A evolução do Universo Físico, portanto, nada mais é do que a evolução da Consciência, a partir de uma infinidade de posições atuais inconscientes, que adquirem consciência ao se relacionarem com os pontos vizinhos, no espaço tridimensional (ATUALIDADE) e no “espaço-tempo” (REALIDADE).

Agora podemos fazer a pergunta fundamental, a mais importante de quantas possam ser formuladas: como a essência passa a ser existência?

Como a Realidade bate à porta da Atualidade?

Sendo ambas simultâneas e não sucessivas, em todo o espaço infinito, eternamente, o que as separa seria apenas a natureza da consciência em cada uma.

Na ATUALIDADE, a consciência é meramente espacial, geométrica, matemática, apenas psíquica, na percepção de si e do outro.

Na seqüência abaixo, temos uma série de um ou mais S a perceber outro(s) S em diversos conjuntos.

              NSNSN       –   a percepção de distância, comprimento, na
                                             linha = uma dimensão
 
                 NSN         –   a percepção de área, comprimento/largura, no
              NSNSN           plano = duas dimensões
                 NSN
 
 
                 NSN
             NS  S  SN    –   a percepção de volume, comprimento/largura/altura, no
                 NSN              no sólido = três dimensões (o S central está num plano
                                       acima/abaixo daquele em que se encontram os outros).
 
O Universo, assim, sempre foi, é e será, como essência, essa infinidade de pensamentos conscientes pontuais SOU, estacionários, potenciais, a -273,15º C, em quatro eixos lineares, de infinitas posições de comprimento nulo, largura nula, altura nula e duração nula, compondo a ATUALIDADE. Esse Universo nunca nasceu e jamais morrerá.

O que nasce e morre, durando um certo período, variável, é a consciência real que, a cada momento se liga à ATUALIDADE e aí percebe outras posições próximas à sua. Assim o faz, porque, como já dissemos, apesar de haver uma consciência do repouso, não há repouso na consciência.

Na REALIDADE, cada uma dessas percepções espaciais seria acoplada à sua duração, o que vale dizer que a consciência aí passa a ser de natureza “espaço-temporal” e portanto, física, com uma duração capaz de mantê-la, guardando um passado e projetando um futuro.

O que chamamos de tempo ou duração, portanto, nada mais é do que a consciência da sucessão dos agoras, isto é, das percepções sucessivas no espaço. A Realidade, assim, bateria à porta da Atualidade, sempre que a Consciência promovesse uma alteração em tais percepções, mantendo-as em seqüência retrospectiva ou prospectiva, sempre em conjuntos finitos e individuais, que ela própria formaria, conforme suas necessidades e experiências, cumulativamente.

Dizemos, então, sem medo, que, inversamente, a Consciência espacial da Atualidade bate à porta da Realidade sempre que guarda a percepção de um conjunto dimensional no espaço tridimensional e a relaciona com outra percepção anterior ou posterior, em seqüência, também no espaço tridimensional, criando, assim, uma quarta dimensão do espaço, sua duração, o tempo.

Daí, podemos concluir que a Atualidade e a Realidade se distinguem apenas porque esta tem uma dimensão a mais, no espaço: o tempo, ou seja, a consciência durável das outras três dimensões

A Consciência da Realidade, isto é, da Existência, tem, portanto, quatro dimensões lineares: comprimento, largura, altura e duração. Ao contrário da Consciência da Atualidade, que é eterna e infinita no espaço tridimensional – sem a duração – a Consciência da Realidade é função das suas quatro dimensões, finitas. Ela própria também é finita.

Não nos deteremos, neste artigo meramente anunciador, nos detalhes dessa estrutura de pensamento, que serão apresentados em outros textos e que as mentes mais atentas descobrirão por si só. Merece revelação imediata, contudo, um enunciado que poderíamos considerar como Primeira Lei da Psíquica: A Consciência evolui por necessidade de criar estruturas mais complexas para realizar funções mais complexas.

Como primeira necessidade, a Consciência criaria uma estrutura fundamental para a sua evolução, indispensável à manifestação e ao registro de sua existência: o ego, ou seja, o conjunto de pensamentos SOU, que se relacionariam na Atualidade para perceber posições e gerar pensamentos ESTOU AQUI, formando corpos sólidos geométricos poliédricos, com um SOU em cada vértice, daí evoluindo para ESTOU AQUI E AGORA e passando para a Realidade, aumentando sua duração, com uma quarta dimensão.

É fácil compreender esse processo de evolução de um conjunto de pensamentos, o mais simples dos quais teria a forma de um tetraedro (um pensamento SOU em cada vértice), estabelecendo a consciência da forma, da estrutura. Na figura abaixo, por exemplo, teríamos um octaedro (seis vértices SOU), considerando o S central em planos superior e inferior ao dos demais S. Não devemos perder de vista de que, na Atualidade, esse conjunto está inserido na continuidade tri-axial …NSNSNSNSNSNS… como vimos no primeiro diagrama acima apresentado, dele se destacando como uma individualidade no espaço infinito12.

NSN
S S S
NSN

Também é fundamental estar atento para a imobilidade das infinitas posições N e S, no campo atual, eterno, porque são apenas posições fixas. O que se move linearmente é a percepção de cada posição e não esta, como se tivéssemos um papel com muitos pontos fixos desenhados e colocássemos o dedo aqui e ali, formando, por exemplo, um triângulo. Esse triângulo não existe até que nossa consciência o cria e o mantém, podendo, posteriormente, movê-lo ou transformá-lo, sem alterar o conjunto de pontos eternamente fixos.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a um tetraedro ou outro sólido no espaço tri-axial.

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Ainda é fácil de compreender que essa individualidade tridimensional geometricamente sólida, não sendo real esteja disseminada em todo o espaço infinito e eternamente agora, seja como tetraedros, octaedros, dodecaedros, etc., etc., etc…, o que vale dizer: também neste momento, em todos os lugares, à nossa volta e até dentro de nós.

Não há uma consciência desses “indivíduos” psíquicos (conjuntos de pensamento SOU e ESTOU), potenciais, estacionários, que se repetem em agoras sucessivos no mesmo lugar (estão no Inconsciente), até que a percepção que um deles tem de dois agoras na mesma posição do espaço dá-lhe a consciência da existência durante um período que chamamos de tempo. Então, cada um deles já está na Realidade e é um ego que se propõe evoluir para formas mais complexas, criando-as, portanto.

Se o ego é a consciência de si mesmo, da sua existência, da sua posição e das suas dimensões, é evidente que não há qualquer ego na Atualidade, até que aí se manifeste a quarta dimensão do espaço, a sua duração. Dir-se-á, que é a Realidade quem bate à porta da Atualidade, para ali se abrigar (“hibernar”) e guardar sua memória acumulada, como um infinito e eterno arquivo de todas as observações e experiências realizadas no “espaço-tempo”. Um arquivo, que, certamente, apenas É.

Cada ego é, nele, uma de suas pastas, estacionária, atual, mas à disposição da Realidade.

Segundo a Primeira Lei da Psíquica, portanto, a evolução do ego, desde tais indivíduos elementares apenas psíquicos até os energéticos e os materiais, como nós, os humanos, é a evolução da Consciência, na Cosmocronia, numa inacabável senda em direção a uma inatingível limitação da complexidade.


11 Um dos desdobramentos deste artigo, em texto futuro, deverá abordar isso no âmbito da consciência/inconsciência humana. Estamos propondo um tratamento científico para se provar que a consciência neural (nasce no embrião do homem e morre com o seu corpo), na Realidade, transfere-se contínua ou periodicamente, psiquicamente, para o seu Inconsciente Real, que é sua Consciência na Atualidade (eterna), de modo que o ego de uma “vida” se acumularia aos egos de todas as outras “vidas”, nesse arquivo inconsciente para o homem, mas a ele ligado. Assim sendo, na morte do homem, o seu ego consciente (real) não se perderia porque se teria transferido para o ego inconsciente (atual) e voltaria a ligar-se a outro corpo (cérebro) que nasce, num processo de anabiose que se repetiria eternamente, promovendo a contínua evolução desse ego, desde que este surgiu num corpúsculo, sempre acrescentando complexidade física as estruturas necessárias para sua realização psíquica. Isso não contraria a teoria da evolução das especies, de Darwin, mas, ao contrário, apresenta uma solução para o seu maior problema, o causal, tirando qualquer acaso do processo e entregando à consciência a determinação da metamorfose do ser. Este é um exemplo do campo de estudo da Psíquica, que extrapola a Psicologia, restrita aos fenômenos no cérebro dentro da nossa proposta de trazer para a Ciência o que ainda se encontra na Religião e na Filosofia ou na mistura destas.

12 Segundo o código binário, todo o conhecimento (dados) pode ser armazenado e processado, conforme a sucessão de impulsos S (sou) e N (não sou), em sequências infinitamente variáveis  …NSNSNSNSNS… , …NNNSNSNNSSSNSN… , …NNNNNNNNNSNNSNNNSNNNN… , …SSSSNNNNNNNNNNNSNSNNNNNNNN… , etc., cada uma destas sequências sendo a representação binaria de uma informação, formando conjuntos mais simples ou mais complexos (referência 23).

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