Atualidade e Realidade

Parece-nos claro ser filosófica e cientificamente escandaloso o erro de buscar uma origem para o que é eterno e infinito. Assim, o Universo é dual, como essência e existência, simultaneamente.

Como essência, é uma entidade psíquica em repouso, que chamaremos de anergia (do grego an + érgon) e como existência é uma entidade física em movimento, já conhecida como energia (do grego en + érgon). A anergia significa falta de força, a energia é força em ação (por dentro de tudo o que existe). O Universo da energia já é bastante conhecido. O da anergia ainda não o é, mas precisamos dele para revelar o outro na sua integralidade.

A maior dificuldade dessa revelação – isso exige paciência – é justamente a necessidade de enfrentar os condicionamentos que negam a ocorrência de uma entidade psíquica fora de um suporte físico. Se não vencemos essa dificuldade, não conseguimos compreender o Universo dual, completo, integral, único. Cientificamente, o que está em paralelo com a Física não é a Metafísica. É a Psíquica.

Como essência, o Universo não ESTÁ, mas apenas É. Também jamais se TRANSFORMA, pois, se É, mantém-se como sempre. Assim, sempre FOI e sempre SERÁ do mesmo modo, porque é um universo de posições em eterno repouso. Podemos considerar essa essência constituída por uma infinidade de pontos tão próximos que se fossem mais próximos seriam apenas um, num eterno AGORA. Um eterno PRESENTE, sem passado nem futuro.

Em outras palavras, a anergia que inunda o espaço tem a consciência da sua essência, como pensamento potencial (isto é da Psíquica), do mesmo modo como a energia que inunda o espaço tem consciência da sua existência, como pensamento cinético (isto é da Física). Porque todo o Universo, em sua dualidade, é apenas pensamento, consciência.

Temos, assim, no mesmo lugar e ao mesmo tempo, os universos da anergia e da energia, o da Psíquica e o da Física, sem início e sem fim, ambos como campos próprios de uma e de outra. O campo da Psíquica é estacionário e o da Física é variável (escalar ou vetorial). Em verdade, ambos são um só campo, no qual se apresenta e atua a consciência, de dois modos. Quando esta é estacionária, apenas em posição (ela própria nunca está em repouso, ainda que se mantenha na mesma posição), atua apenas no espaço, em três dimensões, sem duração. Ela é instantânea, portanto. Quando é variável, atua no espaço em quatro dimensões (comprimento, largura, altura e duração).

A duração, que chamamos tempo, é a quarta dimensão do espaço.

No Universo como essência, apesar deste ser eterno, portanto, não há a consciência do tempo, como se este fosse nulo, por não ter duração, dimensão. Se assim não fosse, poder-se-ia dizer que o Universo ESTÁ e conseqüentemente perguntar-se-ia ONDE e QUANDO. Se esta nova pergunta fosse respondida, ele não seria o Universo da essência, como o estamos compreendendo, infinito e eterno.

Imaginemos, como ilustração dessa visão, uma pessoa que viveria cem anos, mas não tivesse a consciência do seu passado nem do seu futuro em qualquer momento, gozando apenas o agora, de modo que sua vida seria uma sucessão de agoras durante cem anos. Talvez esta seja a realidade de uma pessoa em coma, fisiologicamente viva, mas sem se manifestar como tal. Se, para seus observadores, o tempo está passando e portanto, tem dimensão, para ela não há tempo. Uma pessoa, contudo, ocupa um espaço limitado e por isso há outros corpos à sua volta, para observá-la. O Universo, ocupando todo o espaço infinito, nada teria à sua volta porque não haveria nada além dele, que não fosse ele próprio e assim, jamais seria observado por fora.

Se o Universo apenas É, não passa de uma essência, sem existência. Constitui uma ATUALIDADE e ainda não uma REALIDADE. Apesar do que, teria a consciência de cada um dos agoras sucessivos, de uma infinidade deles, no espaço infinito. Essa consciência seria constituída por um sinal, impulso (pensamento) único SOU em cada ponto do seu espaço infinito, de modo que, para individualizar os pontos, tão próximos que se fossem mais próximos seriam um só, haveria a necessidade de um intervalo tão pequeno que se fosse menor não existiria, entre cada dois deles.

Aqui temos de enfrentar uma séria dificuldade. O conceito de pensamento e conseqüentemente, de consciência. Filosófica ou cientificamente, “pensamento” é ação do cérebro, ligado a um processo cognitivo da consciência neural; inclusive no caso do “sentimento”, seja isto o que for. Houve um momento, no século XX, em que se discutiu se os vegetais pensam, porque se percebeu e se mediu, por instrumentos, perturbações e reações deles, em face a ameaças provocadas pelo homem à sua integridade física. No caso dos minerais, teríamos uma experiência simples a propor: derramar um pouco de ácido sulfúrico sobre uma pedra. Sabemos todos qual o resultado disso e falamos em reações químicas, nada mais. O que são essas tais reações químicas? Por que uma substância química reage à ação de outra? Estamos até agora no campo da matéria. E no campo da energia? Como uma onda se comporta, interceptada por outra? Podemos falar, sim, em comportamento ondulatório, assim como das partículas elementares. Quem ainda não leu ou ouviu sobre o comportamento próprio de cada um dos seis quarks? É evidente que há pensamento disseminado em todo o Universo, porque – pomos-nos agora numa arena cheia de leões – o Universo É apenas pensamento, infinita e eternamente ATUAL.

É importante deixar claro que estamos falando de Universo sem precisarmos penetrar na Física.

A ATUALIDADE é o campo da Psíquica. Esta palavra, como substantivo, ainda não tem a conotação que estamos propondo aqui, como um campo de atuação do pensamento potencial5 . A partir deste momento, tal se torna indispensável, porque precisamos de uma nova ciência, com este nome. Uma ciência cujo objeto está hoje abandonado, entregue aos humores da Religião, da Filosofia ou de qualquer de seus filhos híbridos. Não nos parece próprio ao espírito científico recusar a adoção, para estudo, de qualquer fenômeno, seja qual for sua natureza.

Jamais teremos uma teoria unificada para o Universo, se continuarmos ignorando a Psíquica com a sua ATUALIDADE. É na atualidade do pensamento universal, que se compõe a estrutura da REALIDADE com o “espaço-tempo” da Física. Em outras palavras: é na atualidade do pensamento Universal, ou seja, da anergia, que se cria o mundo da energia e da matéria. Poderemos dizer que esta ação se deve a atributos do pensamento assim universal e somente dele. Em um dia qualquer, alguém escreveu isso e deu a tais atributos o nome Elohim6 . Como as pessoas em geral não compreenderam tal conceito, ficaram com a idéia de Elohim ser Alguém e assim, ao invés de nascer uma Ciência – a Psíquica – nasceu uma religião que considerou esse Alguém como o seu Deus, ao qual foi dado um nome: JHVH (JaHVeH).

O campo da Física é esse mundo da energia e da matéria, isto é, a REALIDADE.

Se reduzirmos tudo ao seu elemento mais simples acabaremos no pensamento SOU. Nada, absolutamente nada, pode ser mais simples do que isso e se assim é, todo o Universo é feito com esse elemento. É feito com o VERBO. No “início” era o NADA e apenas o VERBO dominava esse ambiente. No início do Universo? Não, porque este nunca teve início. No início da REALIDADE, do mundo conhecido pelo autor da frase bíblica7.

vetores

Podemos apresentar este diagrama, para a ATUALIDADE, no qual S seria SOU e N seria NÃO SOU, no espaço tri-axial infinito. Em outras palavras, posições sucessivas de presença e ausência do pensamento SOU, em três eixos ortogonais, cobrindo todo o espaço infinito. Como já se deve ter percebido, temos aí um sistema, um código binário de comunicação, com o qual se pode armazenar todos os dados, sem limite, assim como processá-los, também sem limitação. Como o fazemos em nossos computadores eletrônicos, estes obviamente limitados…ainda.

Podemos partir daí, da essência SOU para a ESTOU8 , na medida em que cada pensamento SOU tem consciência de outros pensamentos SOU imediatamente próximos, relacionando-se, assim, a outras posições, mas ainda na ATUALIDADE, isto é, no agora. Cada um dos infinitos pontos – posições de pensamento SOU – teria a consciência das posições vizinhas, estabelecendo-se uma distância evidentemente infinitesimal entre ele e o imediatamente próximo e conseqüentemente uma primeira dimensão, em linha. Assim estabelecida a consciência do AQUI, transforma-se o SOU em ESTOU, mas ainda no tempo zero, na ATUALIDADE do agora.

Do mesmo modo, conforme diagrama acima, chega-se às duas dimensões, no plano; ou às três, no sólido; mas sempre na ATUALIDADE do agora. Assim, temos um Universo que se estrutura inteiramente em pensamentos atuais, ainda assim conscientes de posições que formam sólidos (corpos) simples ou complexos, todos aqui e agora. Poderemos ter uma galáxia, cujo agora seria para nós – homens de um planeta em volta de uma de suas estrelas – um longo período, de uma realidade ampla e complexa. Enquanto isso, nesse agora, a mesma galáxia seria uma micro-partícula parada – tempo zero – de um corpo macróbio9 em sua ATUALIDADE.

De uma certa forma, a Física já reconhece a existência desse universo parado, dentro do seu “espaço-tempo” REAL, com a temperatura de -273º C, dito zero absoluto (0º Kelvin). Seria esta a temperatura do Universo ATUAL, no espaço infinito, sem o tempo ou com o tempo nulo da ATUALIDADE, num eterno presente, um sempre agora.

A realidade física trabalha com o “espaço-tempo” do antes e depois, cosmográfica e cosmocronicamente. A atualidade psíquica considera sempre apenas o espaço tridimensional, sem sua duração, sem o tempo. Por não existir ainda a Psíquica, o cientista tem trabalhado com a idéia de que o Universo parado e para ele original é totalmente físico, elevando-se aquela temperatura para a criação sucessiva dos corpos10.

A Psíquica nos permite abordar a atualidade e a realidade simultaneamente, ou seja, a existência neste nosso momento e sempre, dos dois Universos, como dois pólos de um mesmo imã, eternamente inseparáveis. Podemos dizer, assim, que o Universo Real no qual estamos vivendo, agora, tem um passado e um futuro que se encontram num presente intermediário nulo, como mera interface.

Com a nossa consciência neural, física, real, co-existe, no mesmo espaço, um Universo Atual, sem a dimensão do tempo, no qual também estamos vivendo, numa infinita sucessão de agoras para nós, na Realidade finita; mas num único agora para Ele, Universo, na sua Atualidade infinita.


 5 com esta conotação, ATUALIDADE é o substantivo aqui usado para designar o campo da anergia no qual se faz a redução do infinito para um ponto de consciência (um impulso potencial no espaço tridimensional) que se repete em número infinito. Até hoje a única ciência que estuda o pensamento e a consciência é a Psicologia, que só se refere a fenômenos no cérebro e consequentemente no corpo humano, que é parte da física, porque se encontra na realidade do espaço tetradimensional. A psicologia não cuida do pensamento fora do cérebro. Precisamos de uma nova ciência geral, para isso. A Psicologia esta´para a Psíquica, como a Fisiologia está para a Física.
6 Os mais recentes estudos linguísticos conduzem a tradução da palavra hebraica Elohim não mais para o significado Deus. O prefixo El significa Deus. o sufixo im é designativo de plural. O componente central oh, por ser desconhecido, provocou discussão  e polêmica por séculos, até que se chegou a ideia de ser indicativo dos “pensamentos”, “atributos” ou “poderes de Deus”. Houve época em que, por necessidades especulativas muitos consideraram de modo simplório o plural im como sinal de que o mundo teria sido criado por “deuses”. Essa simplificação ignara apenas provocou risos e fez vitimas entre os menos informados.

7 Evangelho de São João, 1:1 – “No principio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Não importa o que já foi dito sobre essa frase, interpretando-a a partir de conceitos muito limitados, apenas no campo da REALIDADE. Como nunca houve uma ciência para a ATUALIDADE e também como colocar essa estrutura na ciência da REALIDADE, criou-se para ela um nicho… na Religião
8 A palavra ESTOU significa SOU AQUI ou SOU AGORA. É o SOU que tem consciência não só de si mesmo como da posição que ocupa no espaço, inclusive na sua dimensão “tempo”, no caso, instantânea, nula.
9 O macróbio é, para os dicionários, o ser vivo extremamente velho. No livro Humanidade (ver referência 18), introduzimos este termo com a conotação de extremamente  grande, em oposição a micróbio, que é extremamente pequeno.
10 Rigorosamente, a Física reconhece precisar de uns míseros 3º para que haja alguma manifestação, admitindo uma temperatura -270º Celsius ou 3º Kelvin para o início de tudo porque nada haveria em temperatura inferior.

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